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15/09/2011

Pescando entre onças

Luiz Sousa Exclusivo para o portal Go! Pantanal



Foto: Luiz Sousa
Onça pintada correndo
Iniciando a série Aventuras pelo Pantanal, irei relatar uma pescaria que fiz com alguns amigos pescadores nas proximidades da Reserva do Taiamã, local infestado de onças.

Por muitos anos trabalhei como guia de pesca para uma pousada, o Recanto do Dourado, que se localiza ás margens do rio Paraguai, aproximadamente 50 km de Cáceres.

Comumente em épocas de baixa temporada, eu e meus colegas piloteiros, pescávamos profissionalmente para vender os peixes ao comércio local, e assim complementar o orçamento.

Certa vez, em uma época de baixa freqüência de turistas, saímos para uma pescaria, e soubemos de que era possível que a vazante do rio estivesse muito forte nas mediações abaixo da reserva do Taiamã. Sendo assim, a pesca de Pintados estaria garantida. Colegas piloteiros de barcos hotéis, confirmaram os rumores, dizendo terem feito excelente pesca do pintado.

Sendo um nativo e bom conhecedor do rio Paraguai e suas vazantes, sabia que era uma ótima oportunidade de levantar um dinheiro extra, pois há dias houve uma “falta” de peixes próximo á cidade, que fez com que muitos turistas desistissem de pescar, e também aqueceu o comércio de peixes.

Juntei-me a alguns companheiros, sendo eu, Tino, César e o Zé Maria, divididos em duas duplas, sendo, eu e Tino, César e o Zé. Fomos até o outro lado da reserva, cujo percurso dá aproximadamente 300 km, rio abaixo.

Essa região é famosa pela grande quantidade de onças, tornando o local mais hostil, e que nos remeteu a triste lembrança do falecimento de um pescador amigo, causado pelo ataque de um desses felinos. Fato que foi muito divulgado pelos meios de comunicação de todo o Brasil. Por conta desse fato, tivemos que descer o rio em uma chalana, para que nela pudéssemos dormir, e assim não precisaríamos desembarcar em terra.

Importante lembrar que, nos últimos anos o número de onças vem crescendo, e seu medo da aproximação com o homem diminuindo, tornando assim muito comum os encontros entre homens e onças.

A chalana que fomos era da pousada que trabalhávamos, e servia para o transporte de carga. Era uma embarcação de médio porte, coberta e fechada nas laterais, tornando-se um acampamento flutuante.

Saímos do porto ás 07:00 horas da manhã, descemos o rio sentido Pantanal, foi uma viagem muito longa porém agradável, por conta das belezas naturais. Ah! Como é lindo o entardecer no rio Paraguai, ainda mais viajando em uma chalana, que desliza suavemente pelas águas proporcionando aos navegantes cenas inesquecíveis! A cada curva um espetáculo diferente, os pássaros revoando, macacos e capivaras, jacarés, mutuns, jacus, e de vez em quando uma onça pintada, deitada de frente para o rio, observando o movimento dos outros animais.

É impossível me cansar deste rio, nasci aqui, cresci e a cada novo dia eu agradeço a Deus por me permitir viver nesse imenso Pantanal. Incrível como cada pescaria é como se fosse à primeira. A simplicidade e hospitalidade dos ribeirinhos são de dar inveja, e no rio é como se todos nos conhecessem há anos. Em pouco tempo de conversa é como se já fossemos velhos amigos. Acredito que seja a paixão em comum entre nós.

Foto: Luiz Sousa


Rio Paraguai - A beleza do Pantanal


Quando chegamos à reserva já era noitinha, mas como não é permitido parar ou acampar nela, seguimos viagem até atravessar seus limites. A embarcação é lenta, o que torna tudo mais demorado. Vale lembrar que no rio, após o entardecer a região se torna muito deserta, só se vê e ouve os bichos da mata.

Neste momento aconteceu o primeiro imprevisto: o motor começou a falhar e a tinir forte, e notamos que uma peça havia se soltado. Eu e o tino, em plena escuridão da noite, fomos resolver o problema. Depois de uma hora conseguimos consertar o motor, e pé na estrada, ou melhor, na água!

Já de madrugada, o Zé que estava pilotando, estava sonolento e não percebeu um banco de areia, encalhando a chalana. Tivemos que cair na água e empurrar o barco, mas era pesado demais, então tiramos os barcos de pesca que estavam em cima da chalana, e com o auxilio de um motor rabeta 5,5 hp finalmente conseguimos desencalhar. Tino assumiu o leme e a viagem seguiu até as 06:00 da manhã, quando finalmente chegamos ao outro lado da reserva.

Dormimos por umas 04:00 horas, e só depois começamos a preparar as armadilhas para finalmente começar a pescaria.

Nessa região a pesca é feita numa modalidade chamada de “pendura” ou de “anzol de galho”. Esta modalidade de pesca consiste em fincar ou amarrar uma vara comprida de bambu, ou varas nativas do mato, na barranca do rio, para que a linha alcance as águas mais fortes e profundas das margens.
Esta modalidade de pesca somente é permitida para pescadores profissionais.

Amarrando uma corda de seda de aproximadamente 2,5 milímetros de espessura e uns 3 metros de comprimento, podendo ser alterado o tamanho conforme a profundidade do local, o chumbo também é proporcional à correnteza, para que a corda de seda não fique nem muito no fundo nem muito na superfície. Chamamos isso de meia água. O anzol pode ser de 9/0 até 12/0, dependendo muito do tamanho da isca utilizada.

As iscas variam muito com a época da pesca, mas a mais comum para pintado aqui na região, e para aquele momento, era o Sairú, uma espécie de curimbatá de médio porte, muito apreciado pelos grandes pintados. Mas não podemos descartar as outras variedades de iscas como Piaus, Pacu-peva e os Camboatás.

No primeiro dia de pesca as coisas iam bem, eu e o Tininho fincamos vinte varas em um lugar muito promissor, na boca de uma Bahia chamada de “aterradinho”. No final da tarde, adentramos este lugar para tarrafear e pegar as iscas. Neste momento que nossos problemas começaram de verdade.

Os Pintados estavam boiando e bocando muito, mas o rio estava um pouco cheio, e por isso houve muita dificuldade de pegarmos as iscas. Somente depois de mais de uma hora tarrafeando é que conseguimos vinte iscas boas, e rapidamente fomos iscar as armadilhas. Logo depois retornamos para a luta de encontramos boas iscas. Depois de umas duas horas, voltamos com mais alguns Sairús para iscar, e ao chegar nas varas tivemos uma bela surpresa: das vinte varas que havíamos fincado, dezesseis já tinham peixes pegos. Infelizmente muitos estávamos fora da medida permitida, mas seis exemplares estavam com o tamanho adequado, e isso nos deixou animado!

Foto: Luiz Sousa


Pescaria de Pintado


Na segunda iscada saíram mais três pintados de medida. Ainda estava cedo e a noite era boa, mas não conseguimos mais iscas, e assim voltamos para a chalana com nove pintados, sendo este considerado um bom resultado pelo pouco tempo de pesca.

Mais tarde, o Zé e o César chegaram com a mesma quantidade de peixes, reclamando também da falta de isca.

No geral, a primeira noite de pesca foi muito boa, pois já tínhamos dezoito pintados. E assim foram os dias seguintes, muitos peixes no rio, mas poucas iscas para capturá-los. Decidimos então descer mais o rio até uma região conhecida como “pacuzinho”, e lá ficamos por mais dois dias sem muito sucesso. Com muito esforço, conseguimos por volta de uns 50 kg de pintado, e decidimos descer o rio mais ainda, até chegarmos na boca de uma grande Bahia conhecida como “pacu-gordo”. Imaginei que, pelo fato da Bahia ser grande, conseguiríamos iscas com mais facilidade.

Este local foi onde ocorreu o ataque de duas onças a um amigo pescador, o Luiz Alex, que era filho de um compadre do meu pai.

As onças o atacaram dentro da sua barraca e o arrastaram por mais de 200 metros, mata adentro.

Quando o pai dele, que estava longe do local olhando suas armadilhas, chegou no acampamento, e viu o que estava acontecendo, tentou socorrer o filho, mais uma das onças o enfrentou, fazendo com que ele recuasse.

O pai desesperado pediu socorro pelo rádio, e todos os que estavam ali por perto se dirigiram para o local, mas já era tarde e o Alex já havia falecido. Com a barulheira dos pescadores que procuravam o corpo do rapaz, as onças correram e deixaram o local. Algum tempo depois o encontraram, já sem vida.

No local onde ele foi morto pelas onças, foi feita uma homenagem, cravaram uma cruz com seu nome e sua foto.

Foto: Luiz Sousa


Onça ao lado da cruz do pescador que foi morto


Atracamos a chalana bem em frente ao local do fato ocorrido, e vez ou outra eu olhava para a cruz do parceiro morto. Aquilo é de arrepiar, mas fazer o quê, tínhamos que pescar, e o lugar sempre foi bom de pescar Pintado. Em alguns momentos presenciei uma imponente onça deitada ao lado da cruz, com olhar firme, mostrando que ali era o seu território, como quem estivesse guardando a cruz da sua vítima.

Nos dias que se seguiram, conseguimos pegar bons pintados. Havia uma chalana de pescadores de iscas no local, conhecidos meus, e que sempre nos davam Camboatás, e isso nos ajudou muito.

Em uma das noites, num barranco, em que eu havia colocado uma vara, ao olhar as armadilhas, vi que tinha um peixe pego. Então peguei a lanterna e foquei só na vara que se batia muito na água, com a fúria do peixe tentado se soltar. Ao nos aproximarmos da armadilha, notei um vulto grande bem em cima da gente, mas com a empolgação de ver logo o peixe não dei a devida atenção, sem perceber que ali estava uma enorme onça pintada nos observando.

Depois do pintado embarcado, ao passar o foco da lanterna, meu coração quase parou com o susto que levei ao ver o animal a menos de dois metros da agente. Vagarosamente, e com a voz bem baixinha, avisei o Tininho, que estava na proa do barco, que em cima dele tinha uma onça. Ele mais que depressa foi soltando o barco, e a correnteza foi nos conduzindo para mais longe.

Fiquei impressionado com a frieza do Tino, “pensa num caboclo de coragem!”.

Foto: Luiz Sousa


Onça pintada na barranceira do rio


Depois do susto, vi que o animal só estava nos observando, e não tinha intenção de nos atacar, pois se tivesse, não teríamos como escapar. Isso parece historia de pescador, mas não aconteceu só comigo e com meu parceiro, é caso corriqueiro nessa região.

Em 2009, uma onça atacou um turista mineiro, pulando sobre ele e o arrancando do barco, causando ferimentos gravíssimos, no qual foi salvo pelo piloteiro, que bateu na onça com um pedaço de pau, fazendo com que a onça soltasse o rapaz.

Continuando, um dos motores de pesca que levamos deu problema, e começou a falhar e a apagar. Como sabíamos que isso poderia acontecer, levamos um motor de reserva.
Eram 3 motores rabetas de 5,5 hp, e como não conseguimos consertar, o Zé decidiu retirá-lo do barco e o substituir por outro. O Zé o colocou em cima da chalana, bem na lateral, para que quando voltássemos para a cidade, levássemos ao conserto. Mas o Zé se esqueceu de amarrar o motor, deixando-o solto. Quando decidimos que deveríamos voltar, o Zé e o César saíram na frente e foram retirando as armadilhas, e mais adiante os embarcaríamos.

O Tino deu partida no motor da chalana e eu fiquei no volante. A lanchinha saiu bem, mas como estávamos atracados debaixo de umas árvores com cipós pendurados, logo depois da partida, vi o Zé gritando, desesperado pelo seu motor que ele havia posto em cima da lancha e que não estava mais. Não é que ao sairmos, o peste do motor se enroscou em um cipó e foi para dentro da água!? Eu não sabia se dava risada ou se me preocupava com o desespero do Zé!

Voltamos ao local para procurar o motor, e por sorte o rabeta caiu na água, mas levou uns cipós enroscados nele, assim marcando onde havia afundado. Mergulhei me apoiando em um cipó e logo o encontrei. Amarrei uma corda nele e puxamos para cima, para alivio do Zé e de todos nós. Você pode imaginar que foi só risada!

Por fim, no décimo segundo dia de pesca, resolvemos atravessar a reserva de volta e pescar mais uns dias no lado de cima, para completar a cota. Saímos do “pacu gordo” ás 06:00 horas da manhã e navegamos rio acima até ás 13:00 horas da tarde. Quando chegamos na entrada da reserva, fizemos almoço e dormimos um pouco para começar a travessia, que seria bem demorada.

Subindo o rio a viagem se torna mais demorada, porque a embarcação tem que ir contra a correnteza, e no nosso caso estava mais pesada com a carga de peixes. Às 16:00 horas partimos rio acima, e foi uma bela viagem pela reserva. Avistei duas belas onças no entardecer, pude até tirar foto de uma delas, que nem se incomodou com a nossa presença.

A noite caiu, e nós continuamos rio acima. Quando atravessamos a reserva já eram 23:00 horas, e o Zé e o César foram colocar as armadilhas, enquanto eu e o Tininho fomos fazer uma janta. Decidimos que só iríamos pescar no outro dia.

Lá pelas 04:00 horas da manhã, o Zé e o seu parceiro chegaram com sete belos Pintados, e pelo pouco tempo que levaram nessa pescaria, imaginei que ali seria um ótimo local de pesca.

Ao amanhecer, senti um bater bem fraco de água nas laterais da chalana, e quando abri a janela lateral me veio uma grande preocupação, pois o tempo estava fechado com nuvens carregadas, e ao longe já vinha branco o tempo com chuva. Logo percebi um vento que vinha do sul, então pensei comigo mesmo que a pescaria havia acabado ali.

Não demorou muito, e o mundo desabou em chuva e vento em cima de nós. No rio se formaram grandes ondas, que tornaram quase impossível navegar com aquele tipo de embarcação. E assim sucedeu o dia todo, chuva, vento, e o frio que começava a apertar. Foi uma das piores frentes frias que eu já tinha visto no rio, não dava sequer para tomar banho. Ficamos três dias incapacitados de fazer qualquer coisa, e como o tempo não melhorou decidimos que a pescaria estava encerrada ali. Foram 27 horas de subida de volta, mas foram horas felizes, contemplando as belezas do pantanal embaixo de chuva.

Foto: Luiz Sousa


Anta atravessando o rio Paraguai


Fico preocupado com o futuro do pantanal, pois pescarias como esta já estão ficando raras, o volume de peixe tem diminuído muito, até para os pontos mais longínquos já não se pode garantir boa pescaria. Alguns afluentes do rio Paraguai estão sofrendo graves mudanças no bioma por causa de barragens hidrelétricas, e isso, junto com a pesca predatória e o consumo excessivo de peixe, tem contribuído para diminuição dos peixes pantaneiros. Por isso que eu faço questão de escrever e contar as minhas histórias e experiências de aventura, pois é possível, que no futuro, as boas pescarias no rio Paraguai fiquem apenas na memória.

Pescando entre onças

  • Pescaria de Pintado
    Foto: Luiz Sousa
  • A beleza do Pantanal
    Foto: Luiz Sousa
  • Onça Pintada
    Foto: Luiz Sousa
  • Tuiuiu - Ave símbolo do Pantanal
    Foto: Luiz Sousa
  • Onça ao lado da cruz do pescador
    Foto: Luiz Sousa
  • Onça pintada correndo
    Foto: Luiz Sousa
  • Anta atravessando o rio Paraguai
    Foto: Luiz Sousa
  • Cervo atravessando o rio Paraguai
    Foto: Luiz Sousa
  • Onça pintada na barranceira do rio
    Foto: Luiz Sousa


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