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19/09/2011

Pescaria com direito a porco monteiro

Luiz Sousa Exclusivo para o portal Go! Pantanal



Foto: Luiz Sousa
Esta pescaria aconteceu em 2009, no final do ms de abril.

O pantanal estava na poca da vazante, e por todos os lados estava bom de peixe. Fui ento designado pela pousada para conduzir uns turistas de pesca, que queriam pescar dourados e pintados. O grupo era formado por trs duplas: um pai e dois filhos, com mais trs amigos.

Logo depois de ser apresentado dupla que iria comigo, o JUNINHO e o SHOTHINHO, me apressei em montar as tralhas de pesca, pois tnhamos uma semana de pescaria pela frente, e todo pescador nos primeiros dias fica ansioso para comear a pescar logo.

Foto: Luiz Sousa



Marcamos para sair bem cedo, antes do amanhecer. Abasteci o barco, peguei as tuviras e jejuns (peixes parecidos com as traras, utilizados como iscas), e j deixei tudo no jeito, para no perder tempo. Depois de tudo pronto, ento fomos para o ptio para conversar sobre como eu iria conduzir a pescaria, e logo de cara j vi que seria boa, pois em uma conversa vi que eles queriam apenas pegar e soltar os peixes e se divertirem, e todos eram mente abertas, acatavam todos os meus palpites, sobre as tralhas, iscas e consumo de gasolina para ir at os melhores pontos. E isto muito importante, porque so os guias que conhecem a regio, a forma de pescar e os pontos de pesca, e se o turista comea a se opor as suas decises fica mais difcil pegar os peixes. Ento aqui fica a dica: sempre escute o guia! As chances de pegar mais peixes aumentam muito. Depois de tudo acertado, tomamos umas cervejas e um delicioso caldo de piranha, oferecido pela pousada aos clientes todos os fins de tarde, e depois da janta fomos dormir para madrugar no dia seguinte.

Foto: Luiz Sousa



Antes do amanhecer eu j estava de p, e como de costume bati na porta do apartamento do Shothinho, avisando que j estava na hora de sair. Ele rapidamente acordou o Juninho, e foram logo tomar um caf bem reforado, porque o dia seria puxado! Em seguida partimos.

Decidi que iramos subir o rio at um ponto que eu conheo, chamado de barranqueira do touro, onde h vrios dias eu vinha pegando muitos dourados e alguns pintados. A pescaria nessa poca do tipo de rodadas, onde subimos um pouco o rio com o barco, e deixamos que a correnteza nos leve rio abaixo, passando pelo ponto onde os peixes esto. As iscas so arremessadas na beira do rio, quase no barranco, onde os dourados e pintados ficam acuando os peixes pequenos. E j nos primeiros arremessos os pescadores fisgaram vrios pintados, mas nenhum acima dos 5 kg. De repente, com um bom arremesso, o Juninho fisgou um belo dourado, que deu grandes saltos e pesou uns 4 quilos! Foi uma bela pescaria, mas sem peixes muito grandes. Depois do almoo descansamos um pouco, e voltamos novamente para o rio, e mais uma vez s pegamos peixes medianos.

Foto: Luiz Sousa



noite, em mais uma rodada de cerveja, decidi que no prximo dia iramos descer o rio para tentar os grandes pintados, em uma regio de pedra conhecida como tucum, e em outra chamada de Simo Nunes. Ao amanhecer, partimos para nosso segundo dia de pescaria!

Logo ao chegar no ponto de pesca, j pegamos alguns dourados, mas todos de pequeno porte. Foi quando me lembrei que tinha uma isca artificial da marca rapala, de meia gua, e a coloquei para o Juninho, que em poucos arremessos conseguiu fisgar um dourado de bom tamanho, que deu muito trabalho para ser embarcado, e logo foi devolvido ao rio. Embarcamos tambm um belo pintado de medida, e decidimos que esse seria guardado para ser feito noite, afinal, o pintado um peixe muito apreciado, ainda mais fresquinho. Sem falar que uma carne muito saudvel! tarde fomos atrs dos pacus, e conseguimos belos exemplares.

Foto: Luiz Sousa



Novamente em nossas reunies noturnas, decidi que mudaria de rio, e que iramos pescar em um afluente do rio Paraguai, chamado de rio Jaur, que ficava mais longe da pousada, e daria uma hora e meia de navegao. Nos preparamos para no voltar para o almoo, para no perder tempo e gastar menos combustvel. Preparamos os lanches, e pedi para a cozinheira que fizesse um kit de sashimi, porque almoaramos no rio.

Subindo o rio Jaur, no dia seguinte, comeamos a pescar bem acima, onde encontrei movimento de peixes pequenos que estavam saindo nas vazantes, e foi s comear a pescar que o pau quebrou, fisgamos belas cacharas e bons pintados, e o volume de puxadas estava to bom que em alguns momentos parvamos para descansar. Foi quando o Shothinho fisgou um dourado de bom tamanho, e decidi que seria este o que viraria sashimi.

Foto: Luiz Sousa



Lembrando que nessa poca, a pesca do dourado ainda era permitida.

Prendi no viveiro e continuamos at a hora do almoo. Como o rio estava cheio, o nico lugar que achei para parar e fazer o sashimi foi na barranca de uma fazenda que fica s margens do rio Jaur. Parei o barco, todos descemos, e fui logo tirando o fil do dourado e cortando os filezinhos bem finos, para ficar bem macio. Foi quando percebi que no cho havia muito rastro de porco monteiro (porco de casa alongado). Imaginei como teria bastante porco monteiro por ali, pois por causa da cheia os porcos ficam ilhados nos lugares mais altos. Logo ento percebi a chegada de dois vaqueiros da fazenda, que com muita simplicidade nos cumprimentaram e pediram uma cerveja, e eu mais que depressa abri a caixa trmica e peguei umas seis latinhas e dei a eles, que com um enorme sorriso me agradeceram. Foi ai que vi a oportunidade de fazer um grande pedido aos meus mais novos amigos: pedi a eles que, se fosse possvel, me deixassem entrar na fazenda para pegar um porco monteiro para fazer para os meus turistas. E o vaqueiro gentilmente falou: se o senhor der conta, pode pegar at mais de um!

Ai foi s alegria! Disse a eles que naquele momento no seria possvel, mas que no dia seguinte viria preparado para pegar um, e se eles me arrumassem um cavalo, eu traria uma caixa de cerveja para eles. Os vaqueiros ficaram com um sorriso de orelha a orelha, dizendo mais que depressa: negocio fechado, e int v com o sinh!.

Firmado o acordo, voltamos pousada, para almoar e descansar para o outro dia, que prometia ser longo.

O porco monteiro no um animal selvagem, como um cateto por exemplo. um porco domstico, que fugiu para o mato, e que por l acabou procriando. Por viver no mato isolado dos humanos, acabam se tornando muito arredio e agressivo. H peo que diz ter mais medo do porco monteiro do que de uma ona!

Samos bem cedo no dia seguinte, e seguimos direto para o rio Jaur, e ao chegar na fazenda os pees j estavam prontos, e com um cavalo j arreado para mim. Os ces dos vaqueiros estavam animados para pegar o porco, e no andamos muito para encontr-los. Depois de atravessar um banhado, um dos vira latas bateu firme na trilha do bando de porco monteiro, e logo depois a cachorrada disparou em corrida at acuar um capado. Quando chegamos no local da acuao, o porco estava em uma moita de gravat, e pensa num bicho bravo! Avanava at na prpria sombra! Peguei um lao de um dos vaqueiros, e sem muita dificuldade consegui laar o porco, e com ajuda dos parceiros peamos o bicho, o colocamos no cavalo e levamos at a cede da fazenda. Depois o coloquei no barco, vivo e peado, para levar para a pousada.

O Juninho e o Shothinho que j gostavam de um piseiro, ficaram doidos com a arrumao. Agradeci a peozada, e ao me despedir j recebi um convite deles para voltar em outra ocasio. Como ainda era cedo decidimos que continuaramos a pescaria at a hora do almoo, mesmo com o porco bravo amarrado dentro do barco, e assim foi.

Fui tentar uns pintados na rodada de pedras chamada de tucum, j no rio Paraguai, mas quando cheguei j tinham muitos barcos no local da rodada, e nem parei. Decidi descer mais ainda o rio, at outro ponto chamado de Barranco Vermelho.

E j no primeiro arremesso o Juninho fisgou um lindo pintado, que lhe proporcionou uma bela briga. Depois de embarcar o peixe, percebi que ele havia engolido o anzol, e ao tentar livr-lo do anzol acabei por machucar mais ainda o peixe, e infelizmente no tive alternativa a no ser sacrific-lo. Uma pena, mas pelo menos o aproveitamos.

Foto: Luiz Sousa




Tirando esses poucos exemplares que comemos, o restante dos peixes foram todos devolvidos ao rio, mesmo os que deram medida.

Os pescadores que estavam por perto ficavam muito curiosos para ver o que acontecia no nosso barco, pois o porco em alguns momentos aprontava um berreiro dos infernos, chamando a ateno de todos. O fato gerou muitas gargalhadas!

Ao retornar pousada, ao chegarmos fomos a sensao! Um porco e um pintado dentro do barco! Eu nunca havia feito pescaria igual, e todos que estavam por perto no acreditavam no que viam.

Enquanto os pescadores foram almoar e descansar, eu tratei de por gua para ferver e limpar o porco monteiro.

Mais tarde, peguei umas lascas de lenha, coloquei na churrasqueira e mandei fogo! Depois de pouco tempo j tinha brasa boa para fazer o assado.

Foto: Luiz Sousa



Peguei as paletas inteiras e os pernis, temperei apenas alho, sal e limo, coloquei na grelha e meti no fogo. Pensa numa carne que fez sucesso!

Foto: Luiz Sousa



A farra se seguiu at o final da pescaria, onde esta turma de timos pescadores capturaram muitos dourados e pintados de todos os tamanhos, e o melhor: devolvendo todos ao rio!

Depois dessa pescaria, todos os anos a turma do Shother retorna para pescar aqui comigo, e sempre pegam muitos peixes, pois aprenderam a vir na poca boa que a vazante.

Mais do que guia e turistas, nos tornamos amigos, e mesmo que no possa conduzir a pescaria com eles fao questo de pelo menos sair um dia para pescarmos juntos. uma turma especial, que solta os peixes capturados, e tem como prioridade a diverso, pegando peixe ou no.

Com pescadores assim o pantanal vai longe!

Um grande abrao a todos!

Luiz Emerson de Sousa

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