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02/12/2011

Construção da imagem da pecuária do Pantanal

http://www.diariodemarilia.com.br



Foto: Tathi Camargo
Encravada na micro-região da Nhecolândia, uma das onze divisões do Pantanal, está a Fazenda Nhumirim, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias). Com uma área de aproximadamente cinco mil hectares, é referência nacional e mundial em pesquisas e proteção do que é considerado Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera pela Unesco.

Com o intuito de perpetuar sua principal missão, a preservação do maior viveiro do planeta, a Embrapa desenvolveu o projeto Construção da Imagem da Pecuária Sustentável do Pantanal e o apresentou aos maiores meios de comunicação do País. O Diário foi convidado e conferiu.

Partindo-se de Corumbá/MS, pegamos uma caminhoneta e embarcamos para uma viagem de 160 km até a fazenda. Aí começa a aventura. Num utilitário com tração nas quatro rodas, os únicos que vencem a estrada de areia, atravessamos o Rio Paraguai de balsa, várias pontes de madeira, muitas porteiras e, após cinco horas de viagem, chegamos ao destino. Vale dizer que, na época das cheias, a viagem só é feita de barco, usando a estrada como canal de navegação. Ou de avião, pois a maioria das propriedades possui campos de pouso.

Confesso que as horas de viagem até a fazenda foi como estar dentro em um grande viveiro, tamanha a diversidade de pássaros e a alguns bichos que só tinha visto em livros e revistas. Sem falar no conteúdo passado pelos guias, a jornalista Raquel Brunelli e o pesquisador José Aníbal Comastri Filho, que trabalha no Pantanal há 34 anos e foi um dos responsáveis pela abertura da fazenda. Ouvi-lo explicando a origem do projeto me fez sentir uma pessoa privilegiada.

Ao chegar ao destino, sentimos o que é viver em um lugar onde a luz elétrica não chegou. Na Nhumirim, ainda que privilegiada pela sua organização, o gerador de energia trabalha apenas das 12h às 14h30 e das 18h às 22h. São os momentos em que se pode usufruir de pequenos ventiladores instalados nos quartos. Na hora do banho descobrimos que a água é leitosa em razão do calcário e amarronzada por causa da presença da argila. Só restou descansar para curtir o próximo dia.

Para acordar, nada de despertador. A natureza se encarrega disso ao som da Curicaca, ave de bico grande e curvo que começa a cantar por volta das 4h30, seguida por todas as outras. É uma bela e verdadeira sinfonia.

Badalo do sino chama para o café

Exatamente às 6h, um sino se toca, avisando que o café da manhã está servido. Além de café, pães e bolos, descobrimos uma particularidade na alimentação matutina do pantaneiro - o “quebra-torto” - composto de farofa com pedaços de charque e ovos. Assim começa o dia.

Em alguns períodos, a movimentação na sede da Nhumirim aumenta. Nos dias em que estivemos lá, além de estudantes universitários, pós-graduandos e demais pesquisadores, ocorria a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho - Sipat/2011. Na sede foram montadas salas para consultas médicas ginecológicas, atendimento odontológico, vacinação e cuidados com a saúde do homem e da família, trabalho este para todas as fazendas da região. Eu e meu marido Leonardo aproveitamos e tomamos vacinas para tétano e hepatite.

Às 7h, todos saem para o trabalho. A fazenda Nhumirim não segue o horário de verão. O pantaneiro segue a luz natural do dia. As pesquisas se desenvolvem, principalmente, em torno do gado tucura do pantanal, nelore e do cavalo pantaneiro, além de análise do solo e flora.

O Pantanal pecuário

Vencendo bancos de areia, vai se conhecendo a imagem da pecuária sustentável que dá visibilidade às práticas de criação que perfazem 150 anos. Estão lá o gado nelore vermelho e cinza, além da linhagem do cavalo e boi tucura pantaneiro. Os cavalos pantaneiros chegam a valer R$ 30 mil ou mais em leilões.

O porte do gado é menor do que os criados em outras regiões do Brasil, devido à menor quantidade de alimento disponível. A região é constituída principalmente por uma savana estépica, predominando o capim-mimoso, a quantidade de pasto é menor e a natureza se incumbiu de adequá-los à situação.

Enquanto um boi nelore consome, em média, 60 quilos ou mais de pasto por dia, o pantaneiro consome 40 quilos, diz o pesquisador. Outra preocupação com a sustentabilidade da pecuária no pantanal é a não introdução de animais de maior porte, algo que vem acontecendo episodicamente em algumas fazendas compradas por pecuaristas que não são da região.

Isso vai causar ou uma escassez de pasto ou o plantio de espécies de gramíneas não recomendáveis para a região. Por fim, a convivência com todas as espécies animais sem nenhuma intervenção é medida que se impõe. O pantaneiro não mata animais silvestres. Tampouco desmata. Visualizamos até a criação de estimação de um veado em uma fazenda vizinha. Caso o ano seja de muita seca, ou chuva em excesso, nada há o que fazer.

A perda de animais por conta de ataques de onças pardas ou pintadas também está na conta. A retirada de animais só pode ser feita por caminhões de pequeno porte, pois os maiores atolam na areia - comitivas rumo a leilões na região levam onze dias de viagem. A falta de energia elétrica é outro fator que encarece a criação.

Há necessidade de estocagem de alimentos, principalmente na época das cheias, quando a fazenda chega a ficar 4 meses sem comunicação, além de refrigeração para vacinas, e assim por diante. Com 150 anos de pecuária, o pantanal sul-mato-grossense possui 87% de seu território preservado, mas já existe a preocupação com o progresso, principalmente com uma possível introdução do agronegócio com a busca unicamente lucrativa. É preciso ressaltar, no entanto, a preocupação da Embrapa Pantanal na educação das crianças da Nhumirim e demais fazendas da região. Cena das mais marcantes foi a dos pequenos alunos perfilados cantando o Hino Nacional, sob a Bandeira hasteada. O professor, embora com residência em Corumbá, passa todo o mês na fazenda. Cidadão dos mais honrados.

Porco monteiro é uma das principais espécies

Voltamos para a sede, almoçamos - uma comida pantaneira com direito a carne de sol e muita salada -, descansamos e mais uma vez continuamos nossa viagem para descobrir os segredos da região.

No percurso vespertino, conhecemos o porco monteiro, animal de criação que voltou ao seu estado feral após chegar ao Pantanal, há cerca de dois séculos e, desde então, tem sido considerado como a principal espécie cinegética (de interesse para a caça) na região. Suas populações vivem livres na planície e independentes da atividade humana, exceto pelo manejo tradicional que age como fator de controle populacional dos rebanhos.

O animal é objeto de estudo sobre sua influência danosa ou não do ecossistema. Impressiona sua capacidade de “arar” enormes extensões de pasto, pois se alimenta de raízes. Não deixa de ser um empecilho para a pecuária na região. Mas, apenas os capados são caçados para alimentação.

A produção do charque e dos queijos da região também nos foi apresentado. Fizemos visitas a algumas casas de invernada das fazendas vizinhas para conhecer melhor a vida do pantaneiro. A receptividade emociona. Sempre acolhendo as visitas com uma água fresca de moringa e um cafezinho fresco.

No final da tarde, com o sol já se escondendo no céu em tons de vermelho e laranja, voltamos para a sede, encantados com as vistas da fauna e flora da região. Em meio aos animais silvestres, o gado, em harmonia. A noite chegou com céu estrelado e o mais profundo silêncio toma conta para, no dia seguinte, a natureza seguir sua jornada. Ê, tempo bom que tava por lá. Nem dava vontade de regressar. Mas a Comitiva do Jornal Diário teve que voltar.

(Tathi Camargo e Leonardo Lopes viajaram a convite da Embrapa)

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