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06/12/2011

Pesca de mato

Luiz Sousa para o portal Go! Pantanal



O Rio Paraguai, transbordando suas guas e alagando a mata
Como sou um aficionado pela pesca e pelo rio Paraguai, mesmo quando no estou pescando, sempre dou um jeito de passar na beira do rio! Ali fico por minutos olhando as guas, os pescadores que ficam no cais fazendo sua pesca de barranco, com suas varinhas de bambu a espreita de algum piau, barcos passando, ou l longe bugrinhos tomando banho na praia da chcara do saudoso americano Daveron, que em uma poca passada tambm se apaixonou por esta regio, fixando residncia na beira rio, de onde nunca mais saiu at seus ltimos dias.

Neste ambiente sempre encontro amigos, que por l passam pelo mesmo motivo que eu! Dia desses, em uma de minhas visitas ao cais da Praa Baro do Rio Branco (praa banhada por um brao do rio Paraguai, chamado de Bahia dos Malheiros, um dos belos pontos tursticos de Cceres), encontrei um amigo de infncia chamado Moacir, conhecido desde criana como Acir, e entre uma conversa e outra comeamos a lembrar de pescarias que fizemos na infncia.

O Acir vendo aqueles pescadores lutando para pegar um piau, me lembrou de uma pescaria que fizemos h muitos anos perto daquele local. Ah como tinha peixe naquela poca!, disse ele para mim. E naquele momento as lembranas voaram longe! Disse a ele: como poderia esquecer meu amigo!.

E foi assim que aconteceu...

O pantanal, ao contrario do que muitos pensam, no s formado por campos alagados. Possui matas ciliares muito densas, em algumas regies parecidas com as matas amaznicas. Em meados de dezembro, a chuva, que teve seu ciclo iniciado em outubro, comeam a cair com muita intensidade, e enche os afluentes, que por sua vez despejam suas vazantes no rio Paraguai. E o Paraguaizo, ao estar bem cheio, joga a gua para fora do seu leito, causando o alagamento de reas gigantescas, e as matas ciliares s margens do rio se transformam em um grande ambiente de reproduo e alimentao para os peixes pantaneiros. Dentro destas matas existem rvores frutferas que soltam suas frutas maduras dentro da gua, justamente nesse perodo da cheia, proporcionando aos peixes que adentram na mata uma enorme variedade de alimentos.

Lembro-me que em uma cheia no inicio dos anos 90, eu e Acir marcamos uma pescaria para o fim de semana, pois mesmo sendo bem jovens j trabalhvamos e s podamos pescar nos feriados e fins de semana. Tnhamos pouca experincia na modalidade de pesca que amos fazer, mas muita disposio e coragem! Pelo fato do rio estar cheio, a pesca consistia em adentrar na mata inundada, com uma pequena canoa conhecida pelo nome de desinteira famlia, nome atribudo por ser uma embarcao muito pequena e fcil de afundar. Mas assim tinha que ser, aprendi esse tipo de pesca com meu pai.

Conhecida na regio como pesca de mato, o pescador deve entrar na mata com a canoa e ir fazendo uma picada para marcar a localizao, assim alcanando as fruteiras nativas onde os pacus comem. Os pacus percorrem grandes distancias mata a dentro, procura de fruto cados na gua. impressionante como fazem para comer! A fruta pode estar em um lugar bem raso, e mesmo que ele tenha que nadar de lado, alcana frutos a apenas 30 centmetros de profundidade. Quando se encontra uma boa fruteira soltando as frutas, marca-se o local, pois ali uma ceva natural.

Existem duas maneiras de pescar no mato:

- Uma usando uma vara de bambu bem curta, de no Maximo de 1,5 m, com uma linha grossa 0,100 mm, do mesmo tamanho da vara. O melhor anzol o noruegus n /5, por ser bem afiado e muito resistente. A vara curta vai facilitar a boleada da linha dentro do mato para no bater nos galhos. O sistema iscar uma fruta (marmelada ou um coquinho de tucum) que so as que os pacus mais gostam, e bater na gua como se ela tivesse cado do p. O barulho de fruta caindo na gua musica para os ouvidos destes peixes, eles vem para comer a fruta que caiu, e o pescador pode se preparar porque o tranco forte e a emoo grande! Lembrando que o pescador deve manter muito silencio, porque a gua na mata rasa e os peixes ficam ariscos.

- A outra maneira amarrando linhas dentro da picada em galhos flexveis, de 10 em 10 metros, com uma linha resistente e deixando a isca na flor da gua, pois na natureza 90% dos frutos biam, e isso faz parecer que a fruta est flutuando. O pacu pega e, quando afunda, o galho faz o trabalho de fisgar. Quando pego desta maneira, o peixe faz muito barulho, pois a linha curta e ele briga na flor da gua.

A pesca de mato muito usada por pescadores profissionais, por ser de baixo custo. Requer muito conhecimento da regio, sofrida pelo fato do pescador estar no mato e sofrer picadas de formigas e vespas a todo o momento, mas uma das mais eficientes na pesca do pacu. Se a mata tem frutas com certeza tem peixe!

Meu pai havia feito uma excelente pescaria a poucos dias, e tinha me falado que naquela mata tinha muita fruta e estava cheio de pacu. Eu j conhecia a regio, e ento na sexta-feira convidei o Acir para ir pescar comigo, e ele de prontamente aceitou. Combinamos que sairamos sbado bem cedinho. Quando eu convidava aquele cara para pescar, via seus olhos brilharem de alegria. Como ele gostava!

Na sexta noite preparamos tudo, fizemos uma matula, arroz com galinha e ovo frito, pensa num trem bo! Compramos uns refrigerantes, ajeitamos as tralhas e fomos dormir para sair no outro dia cedo. Antes do amanhecer j escutei uns gritos l na rua em frente minha casa, era o bugre louco para sairmos logo! Tirei a bicicleta do quintal, amarramos as tralhas nas bikes, e partimos em direo ao local onde ficavam as canoas. Do local onde samos, at o ponto de pesca, dava mais ou menos uns 5 km de rio, isso equivale a mais ou menos 40 minutos de remo. No percurso j amos traando os planos para pegar os peixes. Chegando ao local percebi que j tinha um pescador naquela mata, e por isso no daria para pescar ali. Fiquei um pouco decepcionado, mas combinei com o parceiro que iramos procurar outro ponto, e assim partimos para outro local. Entrando em um igarap (na regio, chamados de baas), percebi que tinha um grupo de macacos bugios fazendo uma grande algazarra, e vi que estavam derrubando muitos frutos na gua, foi ento que comecei a me animar e disse pro parceiro: se tem macaco derrubando fruta, tem peixe em baixo comendo!.


Macaco Bugio


Procurei um lugar para entrar e averiguar que frutas eram aquelas. Para conseguir entrar na mata foi um pouco difcil, pois havia muitos cips entrelaados que dificultaram bem o trabalho, mas nada que um bom Tramontina no desse conta! Ao me aproximar das rvores, percebi que os macacos me viram, e por algum momento a baguna parou. Dei uma olhada no cho vi que se tratava de uma fruta chamada de caj (encontrada na maioria dos estados brasileiros), se parece muito com a Seriguela, mas tem uma cor forte puxada para o amarelo, e por sinal muito saborosa, adocicada e cida, proporciona um suco muito saboroso refrescante.


P de Caj - os pacus adoram


Pedi para o companheiro fazer silncio, para que eu pudesse ver se tinha peixe comendo ali. Peguei a vara e dei umas cinco batidas na gua, imitando a fruta cair. O que eu tinha para iscar era o coquinho tucum, e para minha felicidade notei ondas por todos os lados dentro daquela mata, e fiquei certo que eram pacus querendo achar a fruta que tinha feito o barulho. Na pescaria de mato possvel ver, em alguns momentos, o peixe abrindo gua com a barbatana dorsal. Isso acontece em pontos onde a gua est bem rasa, e o pacu vem por esses lugares para comer. Mais que depressa preparei o faco e comecei a abrir uma picada. A mata devia ter uns 400 metros de gua lmpida e corrente, e isso me deu um bom espao para colocar as linhas de armadilha. Deixei o Acir em um p de caj para ir colhendo os frutos para usarmos como isca, e fui adentrando e amarrando as linhas. J com umas 25 linhas amarradas, decidi que era o suficiente e retornei fruteira para pegar o companheiro.

Ele tinha uma sacola bem cheia e j dava para pescar um bom tempo. Samos iscando os anzis, e quando j estava no meio da picada escutei um estrondo na gua. Por um momento ficamos quietos para ver do que se tratava, e a o pau quebrou de verdade! Nessa hora foi s alegria, o corao parecia que ia explodir, a euforia tomou conta dos dois, e logo viramos a canoa e remamos com fora para chegar no local para retirar o nosso primeiro peixe. Quando um pacu est preso na armadilha dentro do mato, preciso ser muito rpido para retir-lo da gua, pois a disputa com piranhas e jacars grande, e se a gente der bobeira eles tomam o pacu da armadilha.

Chegando perto de onde tnhamos ouvido o barulho fiquei apreensivo, pois tudo j estava calmo, e me preocupei achando que um jacar tivesse tomado nosso peixe. Mas olhando bem l na frente percebi um movimento na gua, apurei a vista e vi uma grande mancha amarela arredondada nadando de lado, bem suave, pois a linha era curta e fazia com que o peixe praticamente flutuasse. Arreganhei um belo sorriso e falei para o companheiro: este j esta no saco!. Chegando perto vi que se tratava de um belo pacu, j muito cansado de tanto brigar, entregue ao seu destino. Com pacincia peguei no rabo e o coloquei na canoa. Era um belo peixe, tinha bem os seus 5 kg. Olhei para o Acir e suspirei: Cara, hoje vai ser um dia daqueles inesquecveis, e assim foi.

Durante o dia todo foi uma festa, era peixe estourando dentro da gua a todo o momento, mal tivemos tempo para saborear a matula de galinha com arroz e ovo frito. Foi uma correria e tanto, e o trem foi to bom que nem vimos o tempo passar. Soltamos vrios exemplares que no deram medida, e seguramos s os grandes. No final da tarde avisei o parceiro que teramos que tirar as linhas rapidamente, pois se escurecesse ficaria quase impossvel sair do mato sem uma lanterna. Fomos at o final da picada, para de l voltarmos tirando as linhas. J era bem tarde e o sol j havia sumido, e dentro da mata j estava bem turvo. Quando j vnhamos tirando as armadilhas, ouvi um estrondo muito forte e grave, bem no comeo das linhas, e disse pro amigo: ou um baita jacar tomando um pacu, ou o maior que bateu at agora. J meio sem rumo pela falta de claridade, chegamos ao local. Era a primeira linha da picada, com um pacu de assustar! Por j estar escuro, e estarmos sem iluminao, s percebi que era grande, mas no deu para ver direito o tamanho. Coloquei para dentro da canoa, tirei a linha e aprecei no remo para sairmos logo. Quando vi que j estvamos no rio, fiquei tranqilo, pois sabia que no havia mais como nos perder. Remamos de volta at o porto, e ao descer no seco e comear a ajeitar as tralhas foi que percebi que o ultimo pacu era enorme, pesou 8 kg e mediu mais de 60 cm, o que para um pacu um exemplar bem grande. Alm do bitelo, pegamos mais 13 belos exemplares dentro da medida.


Fim de tarde no Rio Paraguai


Ento, com tudo pronto, tive que ir at um orelho ligar para meu pai vir buscar os peixes no seu Corcel I, pois com tanto peixe era impossvel levar de bicicleta.

Esta sem duvida foi uma bela pescaria, que jamais vou esquecer!

Por muitas e muitas vezes pesquei no mato, hoje no o fao mais por julgar no ser necessrio, pois h muito no vivo da pesca profissional.


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