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10/01/2012

A Traíra

Luiz Sousa para o portal Go! Pantanal



Foto: Luiz Sousa
Faltavam 30 minutos para o meio dia de um sábado do mês maio, e eu naquele laboratório da ótica onde trabalhava. Já estava numa agonia danada para que a loja fecha-se logo. Lá em casa as tralhas já estavam arrumadas desde a quinta-feira, e prontas para viajem. Os parceiros que não trabalhavam, ou que eram donos do próprio negócio, por não terem obrigações com empregos já tinham ido para o nosso acampamento na quarta à tarde. E eu por ser um “simples cidadão de carteira assinada” tinha que cumprir a carga horária da semana, que terminava no sábado ao meio dia. A tormenta era saber que o Fernadinho, o meu pai e o Binho “Barata” já estavam no rio desde a quarta feira, e eu ainda aqui na cidade esperando a bendita hora de ir embora chegar.

O nosso acampamento ficava em uma região do rio Paraguai a uns 30 km de minha casa, onde 25 km era por terra, e 5 km por água. Combinei com os parceiros que quando eu chegasse ao porto do sítio do seu Pedro, iria estourar uma bombinha para dar o sinal de que havia chegado para eles virem me buscar de barco. Chegado então o esperado momento de sábado ao meio dia, mal assinei o ponto e saí às pressas. A “titanzinha” 125 roncou alto em direção à minha casa. Chegando em casa peguei a mala velha e a mochila, amarrei na garupa da moto (as varas, carretilhas e caixa de pesca já tinham ido com os parceiros no carro), e segui até um mercadinho próximo para comprar as bombinhas e um jogo de pilhas alcalina para minha lanterna maglite de dois elementos. Quando pedi para o senhor da venda me mostrar as bombinhas, ele se abaixou e pegou uma caixa de papelão que continha, além de muitas bombinhas de diferentes tamanhos, uma espécie de bomba grande amarrada em uma varinha de bambu. Estranhei aquilo, e perguntei ao o senhor do que se tratava, e ele me respondeu que era uma bomba conhecida como “busca-pé”, e que ao ser acendida decolava bem alto antes de explodir, e que gerava uma explosão muito forte. Pronto! Naquele momento já me veio um pensamento perverso na cabeça, em sacanear os parceiros, pois sabendo que iriam gozar muito de mim por não poder participar da pescaria desde o começo, comprei umas bombinhas e mais quatro “demônios” daquele. Mesmo antes de sacaneá-los já estava rindo sozinho!

Antes de chegar ao porto, em uma parte da estrada bem alta em cima de uma serra, decidi estourar duas bombas para avisar a turma que eu estava chegando, assim quando chegasse no porto eles já estariam me aguardando, e eu não precisaria esperar. Sendo assim, acendi uma bombinha e joguei no meio do pasto. Aquilo deu um tiro que ecoou longe, e fez um eco bonito que dividiu o rio e a serra, e foi longe. Para confirmar acendi outra, e o barulhão foi longe de novo.
Liguei a moto e desci serra a baixo, até a entrada do sítio do seu Pedro, onde eu seria apanhado pelos parceiros. Parei na entrada para abrir a porteira, e decidi apanhar umas mangas frescas para comer ali mesmo. Foi aí que começaram os problemas! Estava ali tranqüilo debaixo da mangueira, quando escutei o ronco de um carro que vinha em alta velocidade, levantando poeira alta no estradão, sem sequer imaginar do que se tratava. Fiquei tranqüilo e calmo com minha manga na mão, e a boca toda “lambrecada”, esperando o barco chegar para eu descer até o porto e me lavar e continuar meu caminho. Foi quando o carro se aproximou, vi que era uma viatura da policia militar ambiental, pararam bem na minha frente e desceram do carro três policiais, dois com revolveres 38 na mão e um com uma espingarda calibre 12. Um quarto policial ficou dentro da viatura, me olhando com uma cara de poucos amigos. Sem saber do que se tratava, imediatamente dei um sorriso e levei a mão em direção a um deles para cumprimentá-lo, quando ele já indagou com voz alta:

- Onde esta a arma?

E eu sem nem imaginar o porquê, respondi:

- Que arma?

Vamos rapaz, não se finja de bobo, me dê a arma logo!

E eu ainda sem cair a ficha, respondi com ironia, que a única arma que tinha ali comigo era a minha “arma”, que um dia ia para o inferno ou para o céu.

Então recebi um grito no pé do ouvido que chegou tinir! “Escutei você dar dois tiros à poucos minutos atrás, não se finja de besta, estamos averiguando a região por causa de uma denuncia de pesca ilegal”, disse um dos policiais. Nessa altura o meu coração já estava para sair pela boca de tanto medo de levar uma surra sem nem saber por que, e foi ai que entendi o porquê dos policiais estarem atrás de uma arma. Então expliquei a eles do que se tratava, e mesmo assim fizeram questão de revistar minha mala e minha mochila, e só quando acharam as bombinhas foi que relaxaram e acreditaram na minha historia. Disse a eles que as bombinhas eram para avisar os parceiros que eu estava chegando. Depois de alguns minutos, passado o mal entendido, fiquei conversando com os policiais e eles me pediram desculpas, e disseram que naquela região estava acontecendo muita pesca de rede, e eles estavam ali por motivo de denuncias por parte de alguns fazendeiros, e que confundiram minhas bombinhas com tiros. Mesmo morrendo de raiva, dei um sorriso amarelo e falei que não tinha problemas. Fiquei ali batendo um papo com os policiais, até que escutei o ronco do 15 Suzuki que vinha rio abaixo para me buscar. Despedi-me dos policiais, e com certa ironia os convidei para ir jantar no acampamento com a gente, e eles para minha alegria não aceitaram, pois estavam a serviço e disseram que outro dia aceitariam.
Quando o Binho “Barata” chegou, e eu contei o acontecido para ele, o maldito riu tanto que quase chorou de rir, mas em pensamento sabia que o troco da gozação estava guardado com o nome de “busca-pé”. Chegando ao acampamento não foi diferente, todos os “disgramados” riram de mim! Até meu pai que é serio entrou na parada.

Passado aquele inferno que fizeram comigo, procurei me inteirar de como estava a pescaria, e tive boas noticias: a turma já havia pegado muitos peixes, entre pacus, pintados e piaus. Perguntei para o Fernadinho como estava de dourado, que é o peixe que mais gosto de pescar, e ele me disse que na corredeira da fazenda são Pedro tinha bastante. Então me animei, e procurei ir logo me ajeitando para pegar uns piaus, para usar como isca no dia seguinte para pegar os amarelões (como chamamos os dourados por aqui). Até as 5 horas da tarde, eu já havia pegado uns 30 piaus Ximburé na cevinha feita pelo Fernadinho, na beira do acampamento. Foi quando meu pai chegou na sua canoa, com três belos pacus e mais uns 10 piavuçus . Então meu pai me pediu para que limpasse um pacu e fritasse para a janta, e eu sem pestanejar fui logo cuidar do peixe. Escolhi o maior e mais amarelão, que deveria estar bem gordo, e meti faca nas escamas, cuidei de limpar com muito capricho para não deixar nenhuma escama no peixe.

Nas margens do rio Paraguai, em época de vazante, quando se limpa um peixe maior, juntam ali centenas de milhares de lambaris, para comer os detritos que sobram do peixe que esta sendo limpo. Estou falando de milhares! Quem já viu sabe bem como é. E nesse dia não foi diferente, quando abri a barriga do pacu e a gordura se espalhou na água, parecia que estava fervendo de tantos lambaris disputando aquelas migalhas de gorduras misturadas com as frutas em decomposição que estavam no estômago do pacu. Ao terminar o corte, peguei o peixe pelo rabo, coloquei na água e comecei a esfregar com a mão para retirar toda sujeira decorrente da limpeza. Foi quando percebi na água uns ataques aos lambaris, feitos por alguns peixes maiores. Imaginei que fossem piranhas pequenas, e não liguei muito. Quando terminei de limpar o pacu, pedi para o Fernadinho pega-lo, em quanto eu lavava as mão. Coloquei as mãos na água e comecei a esfregá-las, fazendo um movimento de vai-e-vem, foi quando senti um tranco na mão esquerda, e com o susto puxei fortemente minha mão da água, e no tranco que dei arranquei junto alguma coisa que foi parar no seco. Ao olhar para minha mão, vi que os dedos estavam dilacerados, com vários cortes profundos. Aquilo me deu um susto tão grande, que quando vi comecei a vomitar sem saber do que se tratava, e no momento imaginei que fosse uma cobra ou um jacaré. Foi quando o Fernandinho gritou lá de cima, dizendo que eu tinha pegado uma baita Traíra com a mão, e desceu com a traíra dando rizada, mas quando viu os meus dedos imediatamente entrou em desespero, jogou a danada de lado e saiu à procura de um pano para colocar em minha mão.

Lavei bem a mão na agua do rio mesmo, e rapidamente enrolamos um pano para estancar o sangue. Aquilo doía igual a ferroada de vespa! Não sei porque, mas parecia que aqueles dentes fininhos tinham algum tipo de veneno. Os cortes aconteceram porque, ao morder minha mão, a traíra cravou seus dentes nos meus dedos, e quando eu puxei acabei arrancando ela sem que abrisse a boca, ocasionando vários rasgos nos dedos. A noite caiu e o Binho e o meu pai chegaram, e também ficaram preocupados comigo, e todos estavam dispostos a desfazer o acampamento e me trazer para o pronto-socorro para saturar os cortes. Mas eu estava com tanta vontade de pegar os dourados que não quis voltar de jeito nenhum! Todos insistiram muito, mas eu estava disposto a não ir embora. Com o tempo a dor foi passando, ficando apenas uma dormência nos dedos. E com umas costelas de pacu frito, e um arroz feito na hora pelo meu pai, a dor passou de vez, me animando para o dia seguinte. Mais uma vez fui alvo das gozações dos parceiros, pois quando viram que eu estava bem começaram a zoar de novo, e então foram me contar como foi a pescaria nos dias em que eu não estava lá. Depois de muita prosa resolvi ir dormir, para descansar do dia conturbado que passei. Entrei na barraca, fiz minha oração e agradeci muito a Deus por as coisas terem dado certo, e peguei no sono.

Lá pelas 3 horas da madrugada, acordei do meu pesado sono com o ronco do meu pai (que não é nem um pouco baixo). Olhei para a mão, mexi os dedos e senti que estavam bem. Só havia mesmo uma dormência. Saí da barraca, peguei minha lanterna caminhei até a beira do rio. Senti aquela brisa gostosa de beira de rio na madrugada, que só quem já sentiu sabe o que do que estou falando. Quando ia retornar para a barraca, lembrei dos busca-pés que eu tinha trazido. Andei devagar por dentro do acampamento, com se fosse uma onça se aproximando da presa, abri a mochila, e peguei dois canhões de rabinho. Com muito cuidado coloquei bem debaixo da tarimba do Binho (tarimba é uma espécie de cama feita rusticamente com quatro forquilhas e varas, que servem como estrado), peguei o isqueiro e meti fogo no pavio, em seguida sai rápido de dentro do acampamento, e me agachei meio distante dali. Foi o tempo de eu agachar e o pipoco comeu! O trem deu um assovio forte e saiu pulando dentro do barraco velho de lona, e deu dois tiros que parecia o fim do mundo! Moço do céu, aquilo virou homem rompendo barraca no peito, nego voando da tarimba, o Fernadinho quase perdeu a unha do dedão quando saiu correndo e meteu o pé na cabeça de um toco que ficava ao lado do acampamento. E eu ali no meu cantinho me rachando de rir daquela correria infernal. Era a minha vingança daqueles miseráveis que tiraram sarro de mim o dia todo. O meu pai, coitado, levantou-se todo tonto, sem rumo e sem entender o que tinha acontecido.

Passado o susto foi só rizada! E ninguém mais dormiu até o dia clarear. Logo ao amanhecer, acendi o fogo do fogãozinho de duas bocas e preparei um café. Peguei uns pedaços de arroz da noite passada que estava grudado na panela, e ali fiz meu café da manhã. Peguei os piaus que estavam no viveiro de tela, e os coloquei no barco. Peguei minhas varas e carretilhas, e então escutei meu pai falar lá de dentro da barraca: “Luiz, deixe isso para outro dia, sua mão não está boa”. Mas a vontade de fisgar os amarelões era tanta que eu nem estava pensando muito em como ia fazer para pescar, mas que eu iria eu iria! Convidei o Binho, mas ele disse que iria ficar pescando pacu na ceva, que estava melhor de pegar. Convidei então o Fernadinho, que também não quis ir por causa da ceva. Fiquei com raiva e decidi ir sozinho, e parti rio abaixo em direção às corredeiras da fazenda São Pedro.

Chegando ao local, parei o barco, esperei as ondas feitas pelo motor se acalmarem, e fiquei assuntando o movimento do lugar. Não demorou nada e percebi piaus saltando para fora da água, em meio às pedras, sinal que algum peixe estava atacando eles por baixo, e eu sabia bem que peixe era.
Com muito cuidado e dificuldade apoitei o barco, e tive muito cuidado com a mão machucada, pois qualquer movimento era doloroso, mas só de pensar nas fisgadas que eu ia dar até me esquecia do machucado. Isquei um piau e arremessei à maior distancia possível na direção das pedras submersas. Deixei a linha descer por uns 80 metros, e nada. Então recolhi e efetuei mais uns 10 arremessos, sem obter sucesso. Já estava desanimando, e decidi trocar de piau, pois o primeiro já estava morto de tantos arremessos. Dei mais uns dois arremessos, quando senti um tranco forte, que pegou a isca e saiu descendo o rio com força. Deixei carregar uns 15 metros de linha e dei uma fisgada meio desajeitada por causa da mão machucada, mas o dourado já estava fisgado, deu um belo salto, com um anzol 7/0 mariner cravado no canto da boca, sem chances de se libertar. Briguei um pouco e logo o amarelão estava de lado na beira do barco. Peguei no rabo dele e o coloquei para dentro, era um belo dourado. Fiz vários arremessos, e depois de algum tempo as puxadas começaram. Peguei mais três exemplares de bom tamanho, e uns quatro pequenos (fora da medida), que foram soltos imediatamente.

Já estava me preparando para voltar ao acampamento, quando em um momento senti uma pegada diferente, um peixe maior, que não pulou depois de fisgado. Percebi que era um pintado, só não sabia o tamanho, pois naquelas águas fortes qualquer peixe parecia ser grande. Briguei um pouco com o peixe, mas ele não vinha de jeito nenhum, então como já estava na hora do almoço, prendi a vara no porta-vara do barco com o peixe ainda preso, e puxei a poita para ir em direção ao peixe rio a baixo. Quando o barco começou a rodar, senti que a linha tinha passado por traz de uma pedra, e por isso o peixe não subia. Com um pouco de esforço, funcionei o motor e rodeei a pedra, conseguindo liberar o a linha e continuando a briga. Agora na rodada ficou bem mais fácil para trazer o peixe, e quando ele subiu, vi que estava certo, se tratava de um pintado de uns 14 kg. Com muita dificuldade consegui pegar no rabo dele e reboca-lo para dentro do barco. Passada a adrenalina da briga, senti meus dedos machucados doerem, e quando olhei, minha mão estava toda ensangüentada. Rasguei minha camisa e fiz um novo curativo, meio desajeitado, mas foi o suficiente para estancar o sangue. Então percebi que era hora de parar, pois já tinha matado a minha vontade de pegar bons peixes, e ficar ali com cortes expostos na mão era burrice, poderia pegar uma infecção e demorar para sarar. Funcionei o motor e retornei ao acampamento. Ao chegar, o Fernadinho e o Binho vieram me mostrar uns pacus que tinham pegado na ceva, mas quando viram meu barco com a peixada levaram até um susto, e ficaram doidos. Foram almoçar bem rápido para ir para a corredeira pescar dourado também, e me convidaram para ir mostrar o lugar de apoitar, fiquei tentado a voltar com eles, mas eu estava impedido de voltar, pois os cortes em meus dedos estavam abertos e ficando doloridos demais. Almocei e deitei para descansar um pouco, em quanto isso meu pai já começou a desmontar o acampamento. Lá pelas 16 horas os dois retornaram com mais dois dourados, terminaram de desmontar tudo, e logo descemos o rio até o porto do sitio do seu Pedro. Colocamos tudo no carro, e depois de uma hora já estávamos em casa. Esta pescaria foi muito divertida e farta, mas também me deu uma lição. O corte no dedo indicador inflamou e me deu muito trabalho para sarar, inclusive tive que tomar uma antitetânica e uma benzetacil.

O Fernadinho é meu sobrinho e parceiro de pescaria, seguiu o caminho de guia de pesca, e hoje trabalha em uma pousada onde eu trabalhei a um tempo atrás. É um dos guias mais requisitados da região.

O Binho tem uma loja de carimbos aqui em Cáceres, e de vez em quando ainda pescamos juntos.

Meu pai, já aposentado, agora tem tempo para pescar sempre que quer ou quando minha mãe deixa. É muito teimoso, e não aceita de jeito nenhum que suas condições físicas já não são mais as de um garoto, e sempre que vai para o rio me deixa muito preocupado, pois passa horas no sol, e o seu médico o proibiu de pegar sol depois das 10 da manha. Sempre que tenho tempo eu o acompanho, para que não fique sozinho no rio, pois de um jeito ou de outro ele vai mesmo.

Eu abri uma pequena empresa aqui em Cáceres, em sociedade com um primo e compadre, que é gerente e administrador da pousada mais famosa da região, um companheiro como poucos, professor e irmão, que me ensinou muito do que sei, parceiro de inúmeras aventuras, que vem todos os sábados à minha casa me buscar para ir pescar no pantanal, fez do seu apartamento na pousada o meu também.

Eu adoro me lembrar das aventuras que já fiz e faço com amigos, são momentos que ficam nas lembranças para o resto da vida!


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