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10/01/2012

Arara-azul tem três grupos distintos

Terra da Gente, com info Agência USP



Uma pesquisa realizada no Instituto de Biociências (IB) da USP, acaba de determinar: existem pelo menos três populações geneticamente distintas de araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) em território brasileiro. O que isso significa? Além de possibilitar o manejo adequado da espécie, a descoberta pode dificultar a ação de traficantes desses animais.

“Se uma ave for apreendida nas mãos de traficantes, será possível, com base no estudo, determinar qual a probabilidade de a ave ter sido retirada de um desses locais e, com isso, fornecer elementos que ajudem a estabelecer a rota de tráfico”, aponta a bióloga Flávia Torres Presti, que realizou sua pesquisa de doutorado sobre o tema.

Segundo ela, no Pantanal há dois grupos: Norte e Sul. O terceiro fica na região que compreende o Norte do Brasil (Sul do Pará) e o Nordeste (região das Gerais: Piauí, Maranhão, Tocantins, Bahia).

A bióloga cita o exemplo de uma arara-azul apreendida com um traficante que relatou à polícia que trouxe a ave do Pantanal. “Pelas nossas análises verificamos que a probabilidade de arara-azul ter sido trazido do Pantanal era muito pequena. Os resultados da análise indicavam uma maior probabilidade de ela ter sido trazida de uma das duas outras áreas. Neste caso, a rota de tráfico utilizou os Estados do Norte e Nordeste e depois se espalhou pelo Brasil”, conta Flávia. Esse traficante já havia sido preso em várias regiões do país.

O estudo também possibilita a realização do manejo adequado das araras-azuis, visto que essas populações têm algumas características, como hábitos alimentares bem distintos. Apesar de a diferença genética não ser tão acentuada, colocar uma ave em uma região diferente do seu habitat natural pode comprometer a sua sobrevivência. “A arara-azul é considerada vulnerável e poderá, no futuro, se tornar ameaçada de extinção em consequência do intenso tráfico ilegal e perda de habitat”, alerta Flávia.

No Pantanal, por exemplo, a alimentação da arara-azul é baseada no fruto de duas palmeiras: a bocaiuva e o acuri. Nas Gerais, elas se alimentam de frutos da piaçava e do catolé. Já na região do Sul do Pará, as aves se alimentam de inajá, babaçu, tucum, gueroba, de alguns frutos de acuri ou bacuri e de macaúba ou bocaiuva.

“Esses frutos de palmeiras apresentam características físicas distintas. Por exemplo, a consistência dos frutos ou presença de espinhos, que pode levar as aves a se adaptarem a essas diferenças. Por isso, a alimentação, entre outros aspectos, pode acentuar as diferenças genéticas entre os grupos”, esclarece.

Pesquisadores nas alturas

Para realizar o estudo, a pesquisadora foi a campo a fim de coletar sangue dos filhotes. Flávia Torres Presti precisou utilizar técnicas de escalada, pois as aves vivem em áreas de difícil acesso. No Pará as araras-azuis fazem o ninho no interior de árvores a uma altura de 20 a 25 metros do solo. Nas Gerais, os paredões rochosos são o local escolhido para a chocagem de ovos.

A coleta de amostras de sangue de filhotes ocorreu na região das Gerais e do Sul do Pará. Para as análises das aves do Pantanal, utilizou-se amostras disponibilizadas pelo Instituto Arara Azul. Além de Flávia, outra pesquisadora do IB também fez parte da empreitada: Adriana Ribeiro de Oliveira-Marques, que coletou material para uma pesquisa envolvendo araras-vermelhas. Flávia realizou dois tipos de análise de DNA: a mitocondrial (genes herdados da mãe), e a nuclear (microssatélites), que mostra os genes herdados de ambos os pais.

A pesquisa baseou-se na hipótese da existência de três populações geneticamente distintas de araras-azuis que ocupariam as regiões do Pantanal, das Gerais e o sul do Pará. “Como são isoladas geograficamente, as aves de uma região não teriam como acasalar com as outras e, assim, cada um desses grupos evoluiria de maneira distinta”, explica. Segundo a bióloga, pensava-se também que as aves do Pantanal eram geneticamente idênticas.

O trabalho de Flávia revelou que as araras-azuis do pantanal se dividem em dois grupos: norte e sul. A análise mitocondrial revelou a existência de três grupos distintos: Pantanal norte, Pantanal sul, norte / nordeste. Já a análise de microssatélites apontou a existência de quatro grupos: Pantanal norte, Pantanal sul, norte, nordeste. “A existência dessas populações aumenta as chances de sobrevivência da espécie. Se todas fossem geneticamente iguais, e ocorresse algum tipo de mudança ambiental ou doença, todos os grupos poderiam se extinguir rapidamente devido a pouca variabilidade genética. Por isso, é importante conservar essas diferenças”, explica.

Fidelidade e monogamia

Flávia também constatou um índice de aproximadamente 81% de monogamia dos casais de araras-azuis. A constatação ocorreu a partir da análise de amostras coletadas de aves nascidas no mesmo ninho do Pantanal sul fornecidas pelo Instituto Arara Azul e do Pantanal norte com colaboração do biólogo Paulo Antas. Cada casal cria um ou dois filhotes em um mesmo ninho. “Geralmente as aves encontram um par e permanecem com ele por toda a vida ou até a morte de um deles. Por isso, existe uma probabilidade maior de duas aves serem irmãs se forem coletadas no mesmo ninho. Isso indica a monogamia do casal”, explica.

A pesquisadora analisou aves do mesmo ninho em anos consecutivos e alternados, ao longo de 9 anos de amostragem no Pantanal sul e de três anos no Pantanal norte. Partindo do pressuposto de que se o casal volta ao mesmo ninho, Flávia pode confirmar que as aves de anos diferentes do mesmo ninho devem ser irmãs.

As araras-azuis procriam uma vez ao ano, gerando um ou dois filhotes, no máximo. Se colocarem três ovos, apenas dois sobreviverão. “Os filhotes, ao nascerem, ficam cerca de três meses no ninho e, após saírem, ainda são dependentes dos pais para a alimentação. A separação total ocorre geralmente após 12 a 18 meses”, diz. Essas aves praticamente não migram e sempre ficam no local onde nasceram.

Projeto Arara Azul completa 22 anos

Neste mês, que já chega ao fim, o projeto Arara Azul comemora 22 anos de atividades contra a extinção da espécie no Pantanal Sul Mato-Grossense. Em 1990 eram contabilizadas apenas 1.500 araras-azuis na região. Hoje este número passa de 5.000 indivíduos graças aos esforços do projeto. Na estação reprodutiva deste ano, que teve início no final de julho, até o momento foram monitorados 110 ninhos, 57 naturais e 53 artificiais.

Deste total, 45 ninhos apresentaram postura de ovos e o nascimento de filhotes, sendo 42 ninhos de araras-azuis e três de araras-vermelhas. As perdas de ovos e filhotes ocorreram tanto por condições naturais (predação) como por alterações ambientais, como mudanças climáticas bruscas, altas temperaturas e fortes chuvas.

Segundo Neiva Guedes, bióloga, professora do Curso de Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Universidade Anhanguera-Uniderp e idealizadora do projeto, um fato interessante registrado pela equipe de campo neste período foi a predação de um ninho com ovos por um tucano, que foi flagrado pelas araras-azuis e morto por bicadas. “A fúria foi tão grande, que elas arrancaram a parte superior do bico do tucano, que ficou encurralado dentro do ninho”, afirma a bióloga.

Dos filhotes sobreviventes, 59% irão voar de ninhos artificiais, ou seja, desenvolvidos e instalados por profissionais do projeto Arara Azul, demonstrando a eficácia das ações. Os ninhos são constantemente monitorados durante o ano todo, graças à capacidade off-road das três Hilux (patrocinadas pela Toyota), utilizadas para realizar essa atividade, pois possibilita à equipe do projeto chegar a locais de difícil acesso ou alagados. Somente nesta estação reprodutiva, foram realizadas cerca de 590 escaladas (subidas aos ninhos) até o momento.

Ainda, visando contribuir com a continuidade das pesquisas, o turismo de observação vem sendo praticado no Refúgio Ecológico Caiman, onde está localizada a maioria dos ninhos (87%) e também a sede do projeto Arara Azul.

Nestas visitas, as pessoas podem acompanhar um dia de campo da equipe e observar as araras em seu habitat. Este ano, o local já recebeu as visitas do diretor do filme Rio, Carlos Saldanha, e o premiado fotógrafo, Sebastião Salgado.

Para reforçar as atividades de preservação da espécie, a equipe realiza trabalhos de conscientização, engajamento e educação ambiental com a população local nas fazendas que possuem ninhos naturais cadastrados ou artificiais instalados, bem como em Campo Grande e outras cidades do entorno do Pantanal. Outros projetos relacionados à proteção do Meio Ambiente também são realizados na região, como o Arte de Fazer e Reciclar.

“O projeto Arara Azul representa uma vitória para a preservação da espécie, que estava na iminência da total extinção há vinte anos. As ações de campo combinadas com a conscientização ambiental estão cooperando para a proteção da espécie e redução do tráfico de animais na região”, afirma Ricardo Bastos, presidente da Fundação Toyota do Brasil.


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