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27/05/2012

Sustentabilidade do Pantanal diante de pesticidas

Arno Rieder Portal Go! Pantanal



Foto: Nori Almeida (http://www.wildlifeshot.com)
Tamandu-mirim ou tamandu-de-colete (Tamandua tetradactyla)
O bioma conhecido por Pantanal est numa plancie sedimentar formada por volta de 14 milhes de hectares. O Pantanal inundado principalmente por guas de rios que drenam os planaltos adjacentes. Os nveis das guas dos rios e os extravasamentos na plancie pulsam em funo dos volumes e perodos de chuvas, das estiagens, das condies dinmicas e de sedimentao nas calhas. Mas o regime de guas no Pantanal tambm, cada vez mais e fortemente influenciado pelas condies de infiltrao e escorrimento das guas nas superfcies das reas situadas acima e at a linha divisria das bacias platina-amaznica. As faixas de terras situadas entre esta linha divisria das bacias e a linha da borda do Pantanal determinam o volume e a qualidade dos sedimentos e das guas que adentram ao Pantanal. Logo a vida no Pantanal depende intensamente desta faixa, do que ocorre ali.

O Pantanal um ambiente altamente dinmico, por ao de eventos naturais acrescidos da ao antrpica dentro da bacia e nas adjacncias influentes. Desde a origem do vale, este lugar receptor dos sedimentos erodidos das partes altas, por ao de chuvas e de ventos nas serras, montanhas, planaltos e, at nas bordas. O formato e a baixa altitude da bacia constituem um ambiente receptor e cumulativo por excelncia dos materiais deslocados de outras partes. Assim o Pantanal um clssico e mega ambiente de sedimentao, dinmico mesmo sem a ao do homem. Na medida em que o homem foi se instalando e desenvolvendo sua ao neste espao e adjacncias, a dinmica no Pantanal sofre alteraes em seu curso natural. Entre as aes que alteraram ou alteram esta dinmica tem-se: caa; pesca; instalao de ncleos urbanos; desflorestamento e alterao da paisagem; substituio das reas de composio florstica e faunstica natural por cultivos (agricultura) e criaes (pecuria); introduo de elementos exticos; extrao de elementos nativos; ajustamentos hidrovirios; rodovias; aumento da densidade de populaes locais e na bacia, demandadoras crescentes dos recursos deste ambiente, tambm incrementado pelas demandas externas (explorao-exportao) e pelos migrantes e turistas (em passagem por estas bandas). O uso e introduo de insumos modernos como adubos, sementes hbridas ou transgnicas, pesticidas, de equipamentos agrcolas potentes, de alta capacidade de ao e motorizados, intensificam a alterao da dinmica no Pantanal, porm de modo degradativo. Pois a capacidade de sustentao ecolgica-produtiva do Pantanal afetada em tempo ecolgico muito curto e no consegue tempo suficiente para alcanar novos estgios de equilbrio, pela continuidade e intensificao das aes antrpicas.

Ento, o homem precisa tomar conscincia disto e prever as conseqncias, saber se nada fizer vai delegar as futuras geraes (filhos, netos, etc.) uma herana maldita, comprometendo seriamente a qualidade e capacidade ambiental de sustentar o bioma e os nossos sucessores. Precisamos construir o hoje de tal modo que a humanidade se perpetue e em condio melhor que a atual. Isto requer a busca da perfeita interao ambiental. Estes so motivos da necessidade de se perseguir o desenvolvimento sustentado, e no caso em foco, no Pantanal. necessrio interagir sustentavelmente no Pantanal por muitas razes, entre as quais por abrigar um bioma tpico (sugere-se a leitura da teoria dos refgios); exibir paisagens impares e dinmicas; produzir e ser reserva de muitas riquezas de interesse do homem atual e do futuro (alimentos: peixes, jacars, boi, frutas, etc; materiais: madeira, plantas medicinais, etc; servios: turismo, etc.); ser espao para o homem habitar, mas harmoniosamente; ser caminho de guas navegveis; impactar quem est abaixo (jusante); receber o que adentra (de tudo) e perder o que perece e sai (Ex.: estoques pescados, peixes que morrem por envenenamento). O Pantanal receptor do que lanado nele e acima dele, inclusive poluentes.

Entre os poluentes esto os pesticidas, no Brasil definidos por agrotxicos e afins.

Uma definio de poluio pode ser: tudo aquilo que excede em relao ao que aceito como normal e est em equilbrio no ecossistema em questo. Assim temos vrios tipos de poluies conforme o foco: quando o som est demasiado alto, tem a poluio sonora; quando o visual nos muros ou anncios na cidade esto feios e muitos, se tem a poluio visual; quando h despejo de muitos esgotos domsticos de uma cidade (e no tratados) no rio que leva suas guas para formar o Pantanal, se tem poluio por esgotos; quando se tem restos e resduos de pesticidas lanados no ambiente (sem um tratamento adequado) se tem a poluio por pesticidas. As poluies desequilibram o ecossistema atingido, impactam-no de alguma forma, comprometendo a sustentabilidade do mesmo. As causas de poluio podem ser naturais (ex. cinzas de vulco) ou antrpicas (causados pela ao humana). As antrpicas podem ser impedidas, assim como mais bem administradas. O grande desafio para o homem moderno, quanto a poluio, : tomar conscincia das conseqncias de suas atitudes na interao ambiental, educar-se, buscar conhecimento, desenvolver tecnologia e adotar medidas eficazes ajudar a no deixar deteriorar a qualidade ambiental e, se possvel melhor-lo.

Focando mais especificamente os pesticidas, usados crescentemente na bacia do Alto Pantanal, estes so definidos na legislao brasileira como: produtos e agentes de processos fsicos, qumicos ou biolgicos, destinados ao uso nas atividades agro-silvo-pastoris, em outros ecossistemas, tambm em ambientes urbanos, hdricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composio da flora ou da fauna, a fim de preserv-las da ao danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento (Lei n 7.802, de 11/07/89). So classificados de vrias maneiras, em funo do alvo (Herbicidas, Inseticidas, Fungicidas, etc.), dos grupos qumicos (Fosforados, Clorados, Carbamatos, Piretrides, etc.), do modo de ao (Sistmicos, Contado, Fumigantes, etc.), da toxicidade (Extremamente Txicos/faixa vermelha: 5mg/Kg, 1 pitada/ algumas gotas; Altamente Txicos/faixa amarela:5-50 mg/Kg, algumas gotas/1 colher de ch; Medianamente Txicos/faixa azul:50-500 mg/Kg, de 1 a 2 colheres de sopa; Pouco Txicos/faixa verde:500-5000 mg/Kg, de 2 colheres de sopa a 1 copo; Muito Pouco Txicos:5000 mg/Kg ou mais, de 1 copo a 1litro), da periculosidade (Classe I Altamente Perigosos; Classe II- Muito Perigosos; Classe III- Perigosos; Classe IV Pouco Perigosos). A periculosidade ambiental dos pesticidas leva em conta o comportamento ambiental, ecotoxicidade e impacto na sade humana do produto pesticida.

Os pesticidas so usados para combater pestes ou pragas, embora o conceito de peste relativo, e depende dos interesses do sujeito definidor. Na era da tecnologia moderna de produo e manuteno sanitria dos ambientes, os seres indesejveis, para serem controlados, so combatidos por pesticidas(agrotxicos) modernos, desenvolvidos para atender uma demanda consumista, competitiva, mercadolgica crescente. Isto, em especial a partir da segunda guerra mundial, passou a introduzir quantidades e diversidade de produtos crescentes a cada ano. No tem sido diferente no Pantanal e em suas cabeceiras. Ocorre que ao serem lanados nos alvos (praga), em geral atingem no-alvos(no-pragas) e o ambiente como um todo. Provocam danos ou morte a quem est exposto e sensvel ao produto. Dependendo do comportamento do produto pesticida no ambiente (pouco at muito: persistente, mvel, cumulativo, degradvel, metabolizvel; de largo espectro at ao especfica; de ingresso na cadeia trfica ou no, etc.) este pode produzir desde impactos especficos at amplos, por prazos curtos e at longo. Pode atingir ecossistemas inteiros ou at biomas e desequilibr-los. H risco efetivo e crescente para o Pantanal em face do uso de pesticidas e de forma inadequada, seja dentro da plancie ou na montante. A contaminao pode ser direta (por exposio direta a aplicao) ou indireta (por exposio indireta aos resduos, metablitos ou derivas). Os danos podem ser desde intoxicaes leves at mortes (imediatas ou por conseqncias crnicas e indues de outros males, inclusive cncer).

O uso de pesticidas se d no meio rural (agricultura: controle fitossanitrio, preparo de plantio direto, uniformizao de colheitas; pecuria: fins veterinrios e zootcnicos) e no meio urbano (limpezas, combate a pragas, vetores, etc.). O grande problema est na dbia escolha de medidas adequadas de controle de pragas/alvos, aplicao cuidadosa-protetora e correta das medidas escolhidas e destinao dos resduos dos produtos pesticidas e restos das embalagens.

Alguns estudos sobre o impacto do uso de pesticidas na regio pantaneira e suas adjacncias vm sendo executadas desde a dcada de 1980. Da dcada seguinte at a atual estes estudos esto se intensificando, graas ao incremento de pesquisas propiciadas pelas agncias financiadoras e pelos programas de ps-graduao das universidades comprometidas com a questo ambiental (quase todas).
Em Cceres, no Alto Pantanal, foram efetivados estudos (1982-2000) sobre os procedimentos de escolha, aplicao, de medidas de preveno e curativas adotadas pelos principais usurios de pesticidas. Os resultados mostram riscos ambientais e humanos elevados, principalmente por falta de treinamento e fiscalizao adequada. Tambm foram efetivados estudos (1992-99) sobre o risco de contaminao de guas subterrneas com o uso de pesticidas na superfcie e o risco de guas contaminadas atingirem o Pantanal. Os resultados surpreendem e revelam que a matria orgnica na camada superficial do solo concentra a reteno de resduos que atingem a superfcie das terras. Outro estudo (2000-2002) abrangeu todo o Pantanal e nos pontos coletados nos rios que ingressam no Alto Pantanal foram encontrados nveis preocupantes de resduos de alguns pesticidas, inclusive de produtos proibidos(clorados). Tambm foi efetuado um estudo (1999-2002) que abarcou mais de 20 municpios que formam a cabeceira do Alto Pantanal e os resultados revelam situaes extremamente preocupantes.

No meio urbano de Cceres tambm foram desenvolvidos estudos (2000-2006) sobre o uso de pesticidas domsticos e destinao de resduos. Constatou-se que os procedimentos adotados revelam alto risco de contaminao e de produo de danos a sade e ao ambiente.

Alm destes estudos especficos sobre pesticidas tambm foram desenvolvidas pesquisas(2000-2003) sobre a caracterizao e destinao de efluentes urbanos em Cceres e, mais uma vez a situao revelou-se muito grave em quatro sangradouros urbanos, que recebem e arrastam rejeitos de toda sorte (no adequadamente tratados) para dentro do rio Paraguai, no incio do Pantanal norte.

Como boa parte dos resduos urbanos e rurais adentra no Pantanal, provavelmente o impacto sobre o bioma do Pantanal deve estar ocorrendo, e de forma progressiva. Talvez a poluio progressiva dos rios seja um importante fator de reduo da populao de peixes.
Habitantes e usurios permanentes ou temporrios das bacias hidrogrficas que drenam para a plancie pantaneira, todos ns precisamos rever hbitos e atitudes, optar e agir melhor para viabilizar a sustentabilidade do Pantanal. A educao ambiental adequada far a diferena.
Arno Rieder Eng Agr, Dr. Em Sade e Ambiente; Prof. da Unemat; Ext. EMPAER-MT (em licena).
Texto preparado para apresentao no evento I FORUM DE SUSTENTABILIDADE, ECOLOGIA E CULTURA NA BACIA DO ALTO PANTANAL; 32FIPe, Cceres (MT); 04 de maio de 2012.



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