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22/07/2014

Um encontro com o jaguar do Pantanal

JUSSARA UTSCH* Época - Blog do Planeta



Foto: Divulgação/Sustentar
Onças pintadas numa praia do Pantanal
Ver uma onça na natureza é uma das experiências mais impressionantes, e desejadas, por quem se aventura no Pantanal brasileiro em busca de contato com a natureza. Foi justamente a paixão pelas onças que levou Douglas Trent, ecólogo americano, de 57 anos, formado pela Universidade do Kansas, nos EUA, para a região.

Em 1980, o especialista em pássaros e ecoturismo decidiu conhecer o Brasil para ter contato com a megadiversidade do país. Foi trabalhar em Minas Gerais, como consultor em um projeto de desenvolvimento sustentável, mas a vontade de conhecer a Amazônia e outras regiões o levaram a fazer uma inusitada viagem de ônibus para o município de Aripaunã, no Mato Grosso.

“O ônibus estava lotado de garimpeiros e todos ali só falavam em ouro, enquanto eu observava a floresta. Onde tinha suposições sobre o metal, o grupo descia. Sobrou apenas eu e o motorista. Estava abismado, pois um incêndio consumia a mata e fazia uma cortina de fogo por onde o ônibus passava. Foi quando eu vi uma onça pela primeira vez na vida”, diz Trent. “Era uma pantera negra que saltou na frente do veículos e desapareceu em meio a uma cortina de fumaça. Me apaixonei pela ideia de trabalhar com o animal e quando retornei para Belo Horizonte, decidi buscar por lugares onde poderia ver onças no Brasil”.

A busca o levou para a Transpantaneira, na divisa entre o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul. A estrada construída em 1972 era a porta de entrada para o contato com a fauna do Pantanal. “Quando vi o potencial natural dali, decidi criar uma operadora e trazer turistas ao Brasil. O lugar era um paraíso para birdwatching e o turismo de observação de fauna”, diz Trent, que na época fundou a Focus Tours. As viagens à região estreitaram os laços entre Trent e as famílias pantaneiras, principalmente com Eduardo Falcão, o “Lerinho”. “Eu levava grupos para ver araras-azuis em uma árvore que tinha perto do rancho dele, e passei a comprar o almoço dos turistas de sua família para ajudá-los. Foi quando um dia ele me deu um dente de onça e disse que era um presente, e que agora eu era da família dele”, afirma Trent. A presa que Trent recebeu de presente era de uma onça que Falcão tinha matado, pois o animal estava comendo gado em sua área. O Pantaneiro revelou que ele também costumava matar onças para outros fazendeiros da região. Foi quando Trent fez uma proposta inusitada para Lerinho: “Se eu te ajudar a entrar em no negócio do turismo você para de matar as onças?”.

O trato ajudou a criar uma das mais bem-sucedidas iniciativas de ecoturismo do país, a Jaguar Reserve ou Reserva Ecológica do Jaguar. Com o apoio de Trent, Falcão conseguiu levantar fundos para transformar o seu pequeno sítio em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), e garantiu que turistas estrangeiros visitassem a área de Falcão, levantando fundos para ele construir os primeiros quartos do que seria uma futura pousada na Transpantaneira. “O ecoturismo por definição, inclusive no Brasil, é uma atividade que deve gerar renda principalmente para a comunidade local, além é claro de ajudar a preservar o meio ambiente, por isso insisti tanto que o negócio não deveria ter como base algo administrado por mim, e sim ser um projeto dos próprios pantaneiros”, diz Trent. Ele era muito próximo de pesquisador José Marcio Ayres, conservacionista e um dos idealizadores das Reservas de Desenvolvimento Sustentável no Brasil, como Mamirauá no Amazonas. O Mamirauá tem um modelo similar ao que Trent estava ajudando a construir na Transpantaneira, no Mato Grosso.

Em cinco anos, com apoio da Focus Tours, a Jaguar Reserve já tinha um hotel, uma escola e uma infraestrutura completa para receber turistas, inclusive com energia solar. A família de Falcão foi treinada por Trent e sabia reconhecer os animais da região pelos nomes científicos, falar inglês e atender os turistas estrangeiros que visitavam à área. “Foi quando percebi que minha missão estava concluída e que eles já estavam prontos para fazerem a gestão da área sem a minha presença”, diz o ecólogo que passou a procurar outras áreas para trabalhar.

A notícia de que em Cáceres, à 200 quilômetros da capital do Mato Grosso, havia um local com uma grande facilidade de se visualizar onças novamente despertou o interesse de Trent. “Fui visitar a área próxima a Estação Ecológica de Taiamã, às margens do rio Paraguai, e fiquei maravilhado com o número de onças que vi. Virou o meu novo ponto para trabalhar com o ecoturismo”. A região no Alto Pantanal está em uma área de transição de biomas entre a Floresta Amazônica, o Cerrado e o Pantanal. Banhada pelas águas do principal formador do Pantanal, a natureza da região é única e considerada um dos dez pantanais que existem no Brasil, o Pantanal de Cáceres.

Na época os rumores da população local falavam de uma superpopulação de onças na região, porém ninguém acreditava que os animais pudessem atacar um ser humano.

“Passei novamente a ter contato com a população local, no caso, os pescadores tradicionais, até que um acidente terrível me fez desejar pesquisar melhor a área, dessa vez como ecólogo”, diz Trent. Em 2008, Alex Lara da Silva, de 21 anos, um pescador de iscas foi devorado por uma onça-pintada enquanto acampava em um barranco de rio com o seu pai, Alonso Silva. A brutalidade do ataque reforçou o mito da superpopulação de animais e trouxe uma onda de desconfiança em relação a segurança de se viver em uma região repleta de felinos.

Chocado pelo acidente e preocupado com a preservação das onças, Trent decidiu transformar sua observação e registros em uma pesquisa de ecologia das onças. “Passei a registrar os pontos de visualização com um GPS e usei a metodologia de identificação por pintas, que já era uma forma de pesquisa usada no estudo dos primatas muriquis e das baleias jubartes”, explica. O método consiste em tirar fotografias das cabeças das onças e pelo padrão de pintas frontais se faz o reconhecimento do animal. Desde 2009, Douglas já registrou mais de 51 animais diferentes em uma área de 300 quilômetros quadrados. Um número surpreendente, considerando que o território de uma onça pode ser de até 70 quilômetros quadrados.

Sensibilizado pela realidade da região, Trent percebeu que novamente para salvar as onças de Cáceres ele deveria também trabalhar com o homem, principalmente a população tradicional. Em parceria com o Instituto Sustentar, da qual faz parte, Trent ajudou a criar um Programa Ambiental em Cáceres: o Projeto Bichos do Pantanal, quem em 2012 foi aprovado em um edital do Programa Petrobras Socioambiental, patrocinado pela Petrobras.

O projeto busca além de dar andamento nas pesquisas com as onças-pintadas, para se compreender o comportamento dos animais na região, também incluir a população cacerense em ações de educação ambiental e geração de renda, principalmente junto aos povos tradicionais da região, como os pescadores. “Não tem como propor a preservação de um animal como a onça-pintada, sem incluir o ser humano nessa ação. No fundo tudo está interligado, a pesquisa, a educação ambiental e a conservação da onças-pintadas e de toda a fauna do Pantanal”, diz.

Trent agora visita a área de estudo no barco-sede do programa, que além de estudar as onças é base para as pesquisas com ictiofauana (peixes), aves e os mustelídeos, como as ariranhas e as lontras. Os estudos ocorrem em parceira com a Universidade do Kansas, no EUA, e as instituições locais como a Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICmbio). O objetivo do projeto é também ajudar a desenvolver o ecoturismo na região, de forma que os projetos propostos sejam auto suficientes tal qual a ação com a população da Transpantaneira.

O ecólogo hoje descarta a possibilidade de que exista uma superpopulação de onças na região, apesar dos intensos registros de novos indivíduos. “O que já podemos afirmar é que a área é uma região de passagem desses animais. As razões dessa atração das onças pelas praias do rio Paraguai podem ser diversas, como a oferta de comida, que no caso são as capivaras . Agora, certezas absolutas só vamos ter com as pesquisas a longo prazo”. Até lá, Trent pretende continuar ajudando a preservar os bichos do Pantanal.

*Jussara Utsch é diretora do Instituto Sustentar e coordenadora-geral do Projeto Bichos do Pantanal. Especialista em sustentabilidade pela Fundação Dom Cabral, foi diretora de comunicação do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDs), participou do Comitê Brasileiro da Avaliação do Millennium Ecosystem Assessment, da ONU. Criou o programa de TV Brasil Sustentável na TV Cultura de São Paulo e na TV Educativa do Rio de Janeiro. É idealizadora e coordenadora do Sustentar (Fórum Internacional pelo Desenvolvimento Sustentável), um dos maiores fóruns brasileiro para a discussão do desenvolvimento sustentável.









Animais do Pantanal

  • Arara azul
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Capivara
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Tuiuiu
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Arara azul em seu ninho
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Cervo do pantanal
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Garça branca
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Jacaré
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Casal de Tuiuius
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Casal de Tuiuius em seu ninho
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Quati
    Foto: Arquivo SEMATUR


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