Português English Español

Encontre no Pantanal

Cidades do Pantanal

O Pantanal

Pescaria

Info

Home › Notícias
11/08/2014

A VERDADEIRA ORIGEM DA MÚSICA CHALANA DE MÁRIO ZAN

Correio de Corumbá



Foto: Alle Yunes / Reprodução
Considerada por muitos a música símbolo do Pantanal, Chalana de autoria do acordeonista ítalo-brasileiro Mário Zan (falecido em 09/11/2006), tem ano e local de sua composição. Muitos sabem que a música foi composta em Corumbá, mas há um grande equívoco quanto ao local, não se sabe quem deu a origem, mas desde o ano de 2009 quando teve início a reforma do antigo Hotel Galileu, o fato de que o compositor se inspirou da janela do velho hotel para compor a música ficou em evidência. Puro engano. Quem desmente é o próprio autor!

Em novembro de 2001, Mário Zan retornou a Corumbá após 58 anos, quando esteve na Cidade Branca pela primeira vez, juntamente com o repórter José Hamilton Ribeiro narraram toda a trajetória e a história que originou a música. A reportagem foi exibida no Globo Rural e nela o compositor mostra um casarão que fica na rua Manoel Cavassa (quase em frente a ferradura da praça) nº 109, aponta a janela onde avistou o fato que ao mesmo tempo o entristeceu e o inspirou para a grandiosa composição.

CONFIRA A MATÉRIA

Agora vou ensinar você a cantar Chalana tá? Vamos cantar? Lá vai uma chalana, bem longe se vai...

"bortando" o remanso do Rio Paraguai...

Nessas águas tão serenas, vai levando o meu amor...

INEZITA BARROSO: Eu acho que Chalana é a música símbolo do Pantanal.

TONICO (Tinoco): É a música mais importante do Pantanal.

ALMIR SATER: Chalana foi a primeira fusão da música brasileira com a música paraguaia, é uma síntese histórica, muita gente pensa que essa música é minha, quem dera.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Essa situação demorou mais de meio século para acontecer, o Rio Paraguai, uma chalana e dentro dela um sanfoneiro animado. Só ficou faltando um cantor. "Fui ingrato eu feri o seu meigo coração, chalana tchau". Me disseram uma vez que o autor da Chalana era um italiano chamado Mario Zandomeneghi, era cego e nunca tinha visitado o Pantanal, é verdade Mário Zan?

MÁRIO ZAN: Metade é verdade e metade não, porque de fato eu sou italiano, vim com 4 anos de idade da Itália e meu nome era Mário João Zandomeneghi, acontece que meu nome e sobrenome era muito comprido, então o locutor de São Paulo falou: Vamos cortar, vamos por Mário Zan e aí ficou Mário Zan.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: A fama de cego veio do fato de que um outro sanfoneiro Mario Gennari Filho, que começou na mesma época que ele, não enxergava, então, dois mários, os dois sanfoneiros, o povo confundia. Em 43, 44, Mário Zan veio a Corumbá numa série de shows que fazia em cinemas, primeiro passava um filme e depois vinham os artistas, não havia avião nem estrada para Corumbá nessa época, a pessoa ia de trem até Porto Esperança, ali pegavam um navio veterano da Guerra do Paraguai e subiam o rio até Corumbá, a viagem durava um dia e uma noite, o navio seguia rio acima e só voltava dias depois. Nessa viagem de agora ele foi procurar o hotel onde havia ficado, o lugar é o mesmo, o hotel mudou de nome mas a visão que se tem do quarto é a mesma daquele tempo, com a mesma curva do rio. Mário relembra que naquela viagem, conheceu uma moça com quem acabou mantendo um namorico, até hoje guarda uma foto dela é essa moreninha aí. A letra da Chalana conta o fim do caso, quando a moça vai embora rio acima sem se despedir de mim, como diz a música.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Mário gostou do nome chalana, na verdade uma palavra espanhola, influenciada em Corumbá da vizinhança com Paraguai e Bolívia bem do lado, a chalana original era de tábua cerrada, pra diferenciar da canoa ou piroga esta feita de um pau só escavada no tronco de uma árvore, hoje talvez até pela influência da música chama-se de chalana qualquer embarcação de madeira até certo porte, mesmo essas com motor de centro, aqueles motores "tuc-tuc" usados por pescadores e para vários tipos de transportes. Nessa viagem do Globo Rural para Corumbá em novembro de 2001, Mário Zan aproveitou para uma volta de lancha no Rio Paraguai, e Mário Zan cumprimentou uma fã sua que conhecia suas músicas. Ele é autor de Chalana, você conhece Chalana?
- Conheço.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: E conversou com um velho pirangueiro com lembranças comuns do tempo da guerra.

- Eu assisti ele no circo Bucute.

MÁRIO ZAN: É foi isso mesmo, aqui em Corumbá.

- É aqui em Corumbá.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: De volta a cidade, cumpriu um ritual que vem obedecendo desde sua primeira gravação, visitar as rádios pra sua música ser tocada.

LÚ BARRETO: Olha eu estou muito feliz de receber você aqui, eu tenho certeza de que as ouvintes e os ouvintes que estão nos acompanhando também.

MÁRIO ZAN: Muito obrigado, é um imenso prazer estar novamente aqui, depois de 50 e tantos anos.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Depois rever lugares onde naquela primeira viagem de 43 e 44, tirou fotografia. Deixamos Corumbá para visitar duas cidades do Mato Grosso Do Sul que se tornaram mais conhecidas por causa de outra música de Mário Zan. Essa sua primeira viagem ao Mato Grosso durante a Segunda Guerra quando escreveu Chalana, o Mário Zan se impressionou com uma ave que ele viu tanto no pantanal quanto no filme, e sobre a qual ele fez uma música que se tornaria também muito famosa, a música começa com a sanfona, imitando o cantar dessa ave.

Oh! Siriema do Mato Grosso
Teu canto triste me faz lembrar
Daqueles tempos que eu viajava
Tenho saudade do teu cantar.


JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Você tá passando de 80 anos "né"?

MÁRIO ZAN: É.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Não fica difícil fazer essas pirimpeiras aí no teclado?

MÁRIO ZAN: Fica difícil mas acontece que a gente sempre tem que tá tendo que ir ensaiando, estudando, treinando, de vez em quando uma salmoura na mão quente e assim vai indo.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Agora um detalhe que eu notei, a sua mão é pequena "né"? Deixa eu comparar com a minha, quer dizer que não é o tamanho da mão que faz o bom sanfoneiro.

MÁRIO ZAN: Não, não, e só você saber tocar.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: A sanfona de 120 baixos é grande e pesada, para poder tocar de pé, Mário mandou fazer na Itália um modelo especial pra ele, mais compacta que pesa apenas 17 quilos. A ida a Ponta Porã foi para rever a cidade que é citada na música, chegamos sem avisar ninguém, Mário pôde então caminhar como uma pessoa comum na avenida que divide o Brasil do Paraguai. Avisamos o pessoal de Maracaju que a cidade ia receber o autor da Siriema então prepararam um troféu para o Mário Zan, com uns dizeres bonitos na base e em cima a seriema ao lado do papagaio da cabeça amarela, que os índios chamavam de Maracaju e que veio dar o nome a cidade. Não ficou só no troféu, a tarde na praça a banda marcial Dona Fé de jovens e meninos tocou Seriema, Mário gostou e retribuiu tocando seis músicas inteiras com a ajuda de quem estivesse por ali sem ensaio nem nada, só com animação e alegria, outra composição de Mário Zan é uma homenagem ao lugar onde ele vive. Avenida São João, centro de São Paulo, uma situação de tanto trânsito, tamanha agitação que admira ver alguém morando lá, pois é aí que vive Mário Zan, ele sente-se bem no lugar como talvez se sentisse bem em qualquer outro canto da cidade pois afinal ele tem a chave de São Paulo, uma homenagem que lhe prestaram em 1954, para comemorar seus 400 anos São Paulo fez naquela época um concurso para escolher o hino do quarto centenário, Mário ganhou a chave e o concurso com a música que tocou, e essa música lhe rendeu um recorde, o quarto centenário vendeu mais disco do que as vitrolas que havia na época.

BENJAMIN MARTINS(comerciante): As pessoas compravam o disco porque o 78 rotações, riscava e quebrava, então as pessoas compravam 2 ou 3 discos para evitar o risco de estar quebrado.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: O primeiro assunto com Mário Zan é o lançamento do CD 2001. São 60 anos de gravações do Mário Zan. Mário Zan como foi seu encontro com a sanfona?

MÁRIO ZAN: Eu vim com 4 anos de idade da Itália e meus pais foram morar em Santa Délia, e foram trabalhar numa lavoura de café e com 6 anos eu fui trabalhar na lavoura com meus pais.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Você ajudou a carpir café?

MÁRIO ZAN: Carpi café, mexi com tudo.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Nas festas da roça ficava encantado com os tocadores de sanfona, ganhou uma do pai, aprendeu sozinho e aos 13, 14 anos já participava de um conjunto profissional. Mário quando é que você vei a ter o primeiro sucesso?

MÁRIO ZAN: O primeiro sucesso meu foi o Segue Teu Caminho.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Algumas de suas composições, como Festa na Roça de 1950 são que nem fogueira nos tempos de São João, entra ano sai ano. Das suas quase mil músicas várias delas alcançaram outros países como, essa singela Nova Flor hoje com versão em inglês, alemão e espanhol, fez tanto sucesso que até mudou de nome, de Nova Flor passou a ser Os Homens Não Devem Chorar. Agora quando você tava assim batalhando pra firmar seu nome o rádio era muito importante.

MÁRIO ZAN: Para o artista, para nós era melhor na época do rádio porque aí o povo queria conhecer o artista, depois porque nós viajávamos muito, todo mundo fazia excursão, era uma família, mas era assim um jogo de futebol.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: E como era a linha de ataque?

MÁRIO ZAN: A linha de ataque era Mário Zan, Blota Júnior, Randal Juliano, Santiago e o Adoniran Barbosa.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Adoniran de ponta esquerda.

MÁRIO ZAN: Esse é nosso time.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: No álbum do Mário, uma foto preciosa, ele e a dupla Tonico e Tinoco numa praia, "cada Tarzan hein"!!! Mário, você chegou a voltar a Itália?

MÁRIO ZAN: Foi a uns vinte anos que eu fui a Itália para conhecer onde eu nasci, só que pra ver, pra morar eu prefiro o Brasil, mil vezes.

JOSÉ HAMILTO RIBEIRO: A mulher de Mário Zan, dona Maria Luísa, com metade da sua idade vem com um cafezinho. Para chegar a esse casamento de hoje, que já dura quase 20 anos, Mário passou por 6 uniões anteriores que lhe deram 5 filhos, 11 netos e 5 bisnetos. Ultimamente tem ido muito ao cemitério da Consolação por duas razões: a primeira é a Marquesa de Santos, ele conta que indo ao enterro de um amigo ficou chocado com o desmazelo em que encontrou o túmulo de dona Domitila, dela só sabia que tinha sido amante de Dom Pedro I, descobriu então que após esse episódio casou-se e criou dignamente 5 filhos, ao sentir-se velha e já viúva desfez-se do seus bens doando partes aos ex-escravos e parte a cidade de São Paulo inclusive o terreno do próprio cemitério da consolação. Mário agora é quem cuida do túmulo da marquesa, mantendo-o limpo e com flores.

MÁRIO ZAN: E acontece que eu sinto que depois que eu fiz isso minha vida mudou, eu sinto que eu recebo proteção dessa mulher, vinda dessa mulher.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Depois que morrer, Mário Zan espera ficar ainda mais perto da figura de sua paixão, comprou um terreno em frente ao túmulo da Marquesa de Santos e vai construir ali ainda em vida, seu próprio jazigo. Nossa viagem para Rio Negro foi em novembro e ir para o Pantanal nessa época é dor de cabeça quase certa, de noite a amolação foi completa, nosso carro encravou e a caminhoneta traçada que devia nos puxar também ficou, Mário pitava toda hora, pra espantar o mosquito dizia, quando saía um pouco do carro pisava escolhendo o chão com medo de cobra. Foi preciso trator pra arrastar, uma vez, duas vezes, na terceira decidimos abandonar o carro e seguir na caminhonete para o hotel, onde acabamos chegando as 4 da manhã. Essa parte do Pantanal do Rio Negro tem hotel novo, conforto, recurso, Mário avisou seu amigo por telefone, que íamos encontrá-lo depois do meio dia, dá tempo de uma circulada a cavalo, com pouco já estávamos num banhado vendo uma vara de porco monteiro, um deles tinha até passarinho de carona, chegamos perto de um veado do rabo branco ele assustou e fugiu, agora uma chegada as margens do Rio Negro, no caminho dá pra ouvir o coral das aracuãns, logo depois a coincidência de encontrar uma família de ariranhas pescando, sem pressa as capivaras se afastam com nossa presença, chega uma hora e se assustam. Agora sim, no "jipão" do hotel a gente sai em busca da casa do amigo pantaneiro de Mário Zan, a estrada de areia depois da chuva é até melhor, fica mais firme diferente daquele lamaçal de ontem à noite, no Pantanal é difícil andar muito tempo sem parar as zoeiras das araras chama atenção. Sabe que árvore é essa Mário?

MÁRIO ZAN: Não.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Manduvi.

MÁRIO ZAN: Manduvi?

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: É onde a arara faz ninho.

MÁRIO ZAN: Ah! Daqui dá pra ver duas araras vermelhas.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: A vermelha chama arara piranga, porque piranga na língua do índio quer dizer vermelho.

MÁRIO ZAN: Elas estão namorando.

JOSÉ HAMILON RIBEIRO: Segue a viagem, com muita porteira para abrir e pra fechar. Mário se admira com o mandacaru, o gravatá, plantas que pensava não existirem por aqui. Já dava pra ver o portão da casa aonde vamos, coco não vai faltar.

ALMIR SATER: Mário Zan, que prazer, que alegria. Como vai o senhor?

MÁRIO ZAN: Muito bem.

ALMIR SATER: Zé Hamilton, poxa que prazer tê-lo aqui. Vamos entrar aqui, vamos. Essa aqui é a nossa morada, esse aqui é o lugar que eu mais gosto, casa tem em qualquer lugar, mas um rio desse.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Viver na beira do rio no Pantanal tem um preço, mosquito, por isso a tela. Almir conduz o pessoal pra beira do Rio Negro, o rio faz ali uma curva que passa ao lado da casa, por ali existe muito jacaré, ninguém liga, Mário Zan é que se impressiona com bicho ali tão perto.

MÁRIO ZAN: Ali outro aqui! Filma aqui!

ALMIR SATER: Ali tem outro ali no fundo.

MÁRIO ZAN: Ali outro, ali um, ali um jacarezinho dando "sopa" aqui .

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Uma volta pelo quintal e dá pra ver até um casal de cotias comendo bocaiuvas.

ALMIR SATER: Eu planto muita fruta aqui então os bichos vem comer.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Depois de mostrar a casa, o rio, o quintal, Almir Sater faz uma confissão a Mário Zan.

ALMIR SATER: Essa música Chalana é uma música que eu conheço desde menino, eu não pensava em gravar, eu conheço assim..., aí de repente gravei a Chalana pra entrar numa ceninha de uma novela, falando sério era só pra entrar numa cena de uma chalana passando, tanto que eu gravei com um violão de 12 cordas é do Guarabyra, pedi emprestado eu não tinha o material pra gravar, "tava" no Rio de Janeiro, não deu tempo, e eu até gravei com a letra meio errada, um pouco, mas aí quando assistia a cena com essa música Chalana eu ficava emocionado e aí que eu revi que as coisas assim: que o simples resolve tudo. Eu não tinha a menor pretensão, gravei uma música num sábado de manhã depois de passar a noite tomando cerveja, gravei rapidamente e foi a música que me trouxe mais alegria, mais sucesso na minha vida, tudo que tem aqui é porque a música me ajudou muito. Uma coisa eu não vi, a sanfona do senhor.

MÁRIO ZAN: Cadê a sanfona?

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Tá lá no carro. Almir sai então atrás da viola, apanha uma, dedilha, parece que não aprova, pega outra põe-se conferir a afinação, com aqueles dedos macios, que tocam as cordas como se ele estivesse brincando. No fim sai abraçado com duas.

ALMIR SATER: Vamos fazer um RÉ maior? O que é bom pro senhor aí?

MÁRIO ZAN: Pra mim é LÁ.

ALMIR SATER: LÁ maior? LÁ fica muito alto.

MÁRIO ZAN: Não, não, faz o RÉ.

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO: Almir cisca na viola, procurando lá dentro a moça da chalana. Achou.

Bem longe se vai
Navegando no remanso
Do rio Paraguai
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
E assim ela se foi
Nem de mim se despediu
A chalana vai sumindo
Na curva lá do rio
E se ela vai magoada
Eu bem sei que tem razão
Fui ingrato
Eu feri o seu pobre coração
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor. (FIM)


Confira o vídeo completo da reportagem



Compartilhe: