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14/08/2014

A infidelidade conjugal das ariranhas nas águas do Pantanal

JUSSARA UTSCH* Blog do Planeta



Foto: Douglas Trent
Ariranhas no Pantanal
As ariranhas são bígamas? Não seria correto transferir para os animais conceitos tão humanos de sociedade. Ariranhas são mustelídeos, mamíferos de corpo alongado, patas curtas e longas caudas, que vivem sempre próximos aos cursos d’água. Desvendar o misterioso comportamento afetivo da espécie é uma das missões dos pesquisadores do Projeto Bichos do Pantanal, que atuam em Cáceres no Mato Grosso. O estudo é realizado pelo Instituto Sustentar e patrocinado pela Petrobras.

O animal, considerado feroz por muitos moradores do Pantanal, também é temido por pescadores. “Alguns pantaneiros acreditam que as ariranhas espantam os cardumes por caçarem os peixes. Mas o que ocorre é que os peixes desaparecem quando elas se aproximam”, diz Trent. “E, apesar do temor, no geral as ariranhas são muito brincalhonas. Se não forem ameaçadas, elas não são ferozes. São apenas muito protetoras com as suas famílias”.

Ao encontrarmos um grupo de ariranhas, próximo as raízes de um grande Tarumã, às margens do rio Paraguai, a tese do pesquisador se comprova. De porte maior do que o das lontras (seu parente da família mustelídea), as ariranhas também são conhecidas como onça-d’água ou lontra-gigante. Esse animal de cor castanha e grandes presas afiadas pode chegar a 168 centímetros de comprimento e tem sua sobrevivência ameaçada principalmente pelo desmatamento e a poluição dos rios. Na década de 1980, a caça para a indústria de peles quase dizimou as ariranhas, porém com a proibição, as populações voltaram a crescer nos rios do Brasil.

Ao perceber o barco de pesquisa, as ariranhas passam a protagonizar um verdadeiro show aquático. O silêncio dá lugar a uma grande algazarra. O bando tem oito indivíduos que se misturam entre machos, fêmeas e filhotes. Quando o barco se aproxima, os animais, que estavam escondidos no barranco do rio, perdem a timidez e se aproximam. Guinchadas, pulos e mergulhos entre a lancha e as raízes das árvores são também uma demonstração da habilidade das ariranhas para nadarem nas correntezas do rio Paraguai.

“Esse é um dos oito grupos que monitoro há três anos”, afirma Trent, que utiliza o método de diferenciação pelo padrão de pintas do pescoço para identificar cada ariranha que fotografa e registra. “Mas, desde que comecei a rastrear cada um dos indivíduos percebi que eles vivem em famílias múltiplas”, diz. Uma das constatações do pesquisador é que alguns machos de ariranhas, e fêmeas também, frequentam outras famílias vizinhas de barranco de rio. Esses indivíduos nômades se reproduzem por toda a vizinhança. “Digamos que as ariranhas vivem afetivamente em bandos”, diz Trent, enquanto observa o grupo que segue na direção da praia do rio.

Esse comportamento familiar das ariranhas ainda não foi registrado pela ciência e é uma das observações de campo que Trent pretende compartilhar no XII Congresso Internacional dos grupos especialistas em “Otters” (termo científico para designar lontras e ariranhas), da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, a sigla em inglês), que vai ocorrer durante o Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre 11 e 15 de agosto.

Mais do que mapear quantas famílias de ariranhas vivem na área de pesquisa do Projeto Bichos do Pantanal, Trent busca comprovar que suas observações são um padrão comum entre as ariranhas. “Se elas vivem em famílias múltiplas isso é um bom sinal, pois é um comportamento que ajuda na trocar genética entre os indivíduos de uma mesma região. Isso pode inclusive ser um ponto positivo para a proteção da espécie”, diz Trent.

*Jussara Utsch é diretora do Instituto Sustentar e coordenadora-geral do Projeto Bichos do Pantanal. Especialista em sustentabilidade pela Fundação Dom Cabral, foi diretora de comunicação do Conselho Empresarial Bras. para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), foi ponto focal do Comitê Brasileiro da Avaliação do Millennium Ecosystem Assessment, da ONU. Criou o programa de TV Brasil Sustentável na TV Cultura de São Paulo e na TV Educativa do Rio de Janeiro. É idealizadora e coordenadora do Sustentar (Fórum Internacional pelo Desenvolvimento Sustentável), um dos maiores fóruns brasileiros para a discussão do desenvolvimento sustentável.)

Animais do Pantanal

  • Arara azul
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Capivara
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Tuiuiu
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Arara azul em seu ninho
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Cervo do pantanal
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Garça branca
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Jacaré
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Casal de Tuiuius
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Casal de Tuiuius em seu ninho
    Foto: Arquivo SEMATUR
  • Quati
    Foto: Arquivo SEMATUR


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