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24/08/2011

“Império do Boi” prosperou sobre as terras indígenas em MT

Montezuma Cruz Revista Sina



A agropecuária em Mato Grosso começou a crescer a partir de setembro de 1974. Ainda durante o regime militar, enquanto a guerrilha se instalava na região do Araguaia, índios perderam terras para as propriedades rurais. Algumas fazendas estenderam seus limites para dentro das reservas, originando conflitos. O sarampo atacou fortemente e fez muitas vítimas.

No sul do País, o tamanho médio das fazendas de gado era de 800 a 900 hectares e a maior não passava de seis mil ha. Somente a Fazenda Suiá-Missu, em Barra do Garças e Luciara, totalizava 695 mil ha.

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Foi no início de 1974 que o governo militar fracassou na colonização da Rodovia Transamazônica (BR-230) e começou a dar apoio aos grandes projetos agropecuários no Brasil Central. Em setembro daquele ano o general-presidente Ernesto Geisel anunciava a criação do Programa de Pólos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia (Polamazônia), para contemplar 15 "pólos de desenvolvimento" que abrigariam empreendimentos pecuários, de mineração e de extração de madeira.

O Polamazônia equivaleria ao Plano de Integração Nacional (PIN), anunciado pelo general Emílio Garrastazu Médici, antecessor de Geisel, em junho de 1970. No período do “milagre brasileiro” (1968-1974) havia pobreza, muita pobreza no Araguaia. E muita cobiça em torno do Parque Nacional do Xingu. A riqueza se concentrava em São Paulo, de onde eram direcionados os investimentos para as terras de Mato Grosso.

Entre 1975 e 1979 estimavam-se investimentos de US$ 4 bilhões só de capital privado na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Investidores compraram inicialmente cerca de 6 milhões de hectares de terras.

Em 74, Roma sediou a Conferência Mundial de Alimentos. Nela, o Instituto Transnacional de Amsterdã publicou o relatório Fome Mundial: causas e remédios. Nele, assinalou que as empresas da agroindústria se dedicariam ao lucro e não à alimentação do povo. “Descobriram que o dinheiro de verdade nesse ramo está na comercialização de alimentos produzidos ao menor custo possível no acondicionamento mais sofisticado, esbanjador e ecologicamente destrutivo – mas altamente lucrativo para aquela relativa minoria, no mundo, que tem como pagar por isso”. Um espanto.

O próprio Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) se deixava seduzir pelo modelo agroindustrial e preparava-se para vender, nos cinco anos seguintes, 21 milhões de há União na Amazônia para empresas madeireiras e de pecuária. A euforia econômica em Barra do Garças ficou conhecida na época como o “boom do gado”. Abatiam-se duas mil cabeças por dia para o abastecimento de frigoríficos.

Adivinhe quem levou a pior já naquele período? Acertou se disse “os índios”. Ao norte do Parque Nacional do Xingu, uma grande agropecuária se considerou dona de parte da reserva Tapirapé. Na Ilha do Bananal, no leste do parque, cinco mil brancos – empregados vinham de Goiás e de estados nordestinos – e mais de 200 mil cabeças de gado tomaram conta de uma grande faixa de terras dos Karajá.

Fazendas de gado se expandiram nos municípios de Barra do Garças e Luciara. Durante quase um século esse imenso território entre os rios Xingu e Araguaia esteve livre da colonização, vendo-se uma grande resistência dos índios Xavante, contatados em 1946 pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). As doenças foram inevitáveis.

Os índios revidavam às invasões de suas terras, matando o gado dos fazendeiros e bloqueando caminhões nas estradas. Em agosto de 1974 um grupo de fazendeiros armados foi a São Marcos e tentou remover os índios à força. O fato ocorreu no dia da cerimônia de iniciação dos jovens Xavante e irritou-os.


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